O pateta alegre
Quando a infelicidade nos envolve provavelmente irá tomar-nos por muito tempo. Ao senti-la ao nosso redor estamos afinal a ter apenas a percepção de um processo de contaminação que já se iniciou muito antes. É uma descoberta tardia – é sempre tardia, normalmente já muito depois de incontáveis oportunidades e de um ror de coisas que poderiam ter sido feitas ou evitadas e que sempre, por um qualquer absurdo, acabam por nunca o ter sido - que nos apanha de surpresa. Subitamente, as coisas e as pessoas começam a ser olhadas por nós de forma diferente. Uma forma que as vai distanciando de nós e que nos vai deixando mais sós. Uma forma que abafa em nós todas as oportunidades de arrepiar caminho e que nos impele para um orgulho tolo que não se quer ajudado. Uma forma que nos vai preparando metabolicamente para que nos tornemos inexpugnavelmente infelizes.
Por isso não se presuma nunca que será num serão mais brando regado a vinho e conversa que subitamente seremos capazes de a desconstruir. Ninguém escorraça de si, assim, abruptamente, a pele com que sente, da mesma forma que as coisas que nos envolvem nunca serão em si mais importantes do que a forma como olhamos para elas. Voltar a ser feliz é um processo lento e honesto e muitas vezes contraproducente, no qual arriscamos perder uma boa dose da nossa sensibilidade. Entrementes, enquanto assim vivemos, na penumbra destes dias mais lúcidos, poderemos sempre forçar um sorriso simpático, e este pode até resultar generoso ao rasgar-se no meio de uma conversa ligeira, e pode até indicar boa fé ou um afável grau de satisfação espontânea. Mas será só um gesto perdido, e hipócrita.
Além disso, ser infeliz não é assim tão mau – bem pior que isso é nem o admitir.
Agradecimentos
Não comento aqui, neste blog, como aliás um dia será justificado por uma regra que aqui editarei e que farei por não cumprir. Entretanto ainda não me lembrei de mais nenhuma outra deliberação que tenha tomado que me impeça de vos agradecer, enternecido até, os v. simpáticos comentários na paridura deste blog.
Reloaded
E pronto, cá cheguei. Desanimado, é certo, com esta minha primeira travessia blogosférica e cansado com a carga de palavras que produzi (tantas, tão insuspeitavelmente imensas) e que agora sou obrigado a trazer às costas. Mas satisfeito por finalmente aqui a poder largar, a essa tralha de mim e por poder aqui ficar, já mais longe do troar que criei em meu redor, esse barulho que as palavras fazem quando se escrevem já sem contentamento e razão.
Lá de onde vim e onde deixei as outras palavras, fui aos poucos descobrindo que, se as palavras nos contam, também sobre nós mentem. Que, se as palavras sossegam, também nos desassossegam. Que, se as palavras nos impelem para ainda mais dentro de nós, assim mesmo também nos podem asfixiar. Que, se as palavras nos serenam, afinal também nos podem enfastiar profundamente. Basta que ao invés de sabermos fazê-las contar de nós nos façamos nós contos delas, qual alimento dessa sua vaidade, esse absurdo de presumirem que afinal, nós, os que as escrevem, somos apenas a parte tangível do personagem que elas próprias inventam – como se o nosso mundo fosse assustadoramente mais pequeno do que aquilo que elas deixaram por contar – só para que assim se possam sentir existir. Disso, de me ver assim menos que as palavras, amedrontado, hei-de fugir sempre, saltitando recomeços, uma e outra vez, tantas quantas forem necessárias para apagar indícios do que sei que não sou, do que sei que não sou apenas.
Não sei se é por isso, admito que não, mas este parece-me um local novo, onde me agrada pensar que se pode recomeçar, e aparentemente é aqui que irei agora escrever. Mais silenciado, vigram quase, neste espaço deixarei que as palavras se libertem de novo, aos poucos, uma-por-uma, como se fosse esta a primeira vez. Hoje umas assim, amanhã o que me apetecer, que será sempre com a minha vontade que as irei escrevendo. Até um dia me interrogar outra vez porque aqui o faço e, tal como hoje aconteceu, acabar por juntar todos os textos que entretanto produzi numa nova trouxa de interrogação, e partir de novo, para um outro blog, uma ponta de um guardanapo, ou para uma página amarelecida nos esconsos de uma gaveta – seja o que for, tão só um qualquer lugar ou coisa que possa ser grafada.
Que nisto entranha-se o escrever, e fica-nos este triste fado de ser o choffeur cativo de um desejo deambulante, alarve de palavras. Entretanto, temeroso de ser só isso, fugirei sempre de me ver escrito, e fingirei sempre no que tenho escrito, ou pelo menos, hei-de fingir que finjo. Agora, aqui.
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