Não era de todos os dias, mas quando se candidatava à cozinha era um festival de temperos e paladares. As memórias com o tempo vão ficando episódicas - trechos interrompidos de uma vida comum que fazemos por não deixar desaparecerem e acabamos por guardar num guião mais ou menos verosímil. Destes, se há coisas que recordo assim, emolduradas, eram os meus regressos – depois de largos tempos de desterro pelas terras da Dinamarca – celebrados com a feijoada de domingo para arrumar de vez com os indigestíveis sabores pútridos da salmoura.
Anos depois herdei-a, à feijoada. Recuperei a receita para um papel rabiscado que ainda hoje guardo com zelo, apesar dos cantos já desgastados e que mantenho pespegado por um íman na chapa lateral do frigorífico. Nunca a repassei em papel novo, nem tão pouco o precisaria, pois tenho de memória cada um dos seus ingredientes, as quantidades, os temperos e as sequências com que devem ser introduzidos. Nem mesmo os truques da cozedura da farinheira que se quer rebentada espraiando sabores pelo feijão ou do açúcar para cortar a acidez do tomate carecem de cábula. Mas deixo-a ali, não como uma fórmula culinária de que precise, mas como se por entre os gatafunhos que a declaram, a sua arte pudesse vigiar-me e corrigir os meus desacertos culinários e assim, ainda que inexplicavelmente, fosse a caução que faz com que a amálgama de sabores que confundo numa desastrada panela resulte num manjar invariavelmente elogiado.
Cresci, mudei de casa e ele deixou-nos. Agora sou eu quem faz a feijoada. Quando fico ali, diante dos tachos, apurando sabores, as coisas fazem mais sentido e o certo é que a feijoada dele, ainda que agora cozinhada por mim, continua boa e de chorar por mais. Nunca ninguém percebeu o segredo da feijoada, insistindo em atribuir uma importância relativa à receita que a atesta, aventando-se até algum truque no refogado inicial. É evidente que há algum exotismo nesse segredo indecifrável e que só por isso a feijoada se insinua ainda mais saborosa e essa será já parte do segredo. A outra, a verdadeiramente importante e que aprendi dele, é que os melhores sabores não vêm da comida, mas daqueles com quem a fruímos. É esse o seu tempero especial. O único mérito que a feijoada tem é a de poder fazer panela farta, em redor da qual podemos juntar um bom punhado de amigos e por ali podermos depois ir ficando, satisfeitos, a deixar escorregar conversas macilentas para o meio da tarde.
Se um dia me elogiarem excessivamente estes dotes culinários, irei negá-lo. Talvez deixe escapar uma frase que agora me ocorre: “um bom cozinheiro terá primeiro de compreender os homens”. Ou talvez não. Talvez diga só: “Eu não, mas o meu pai era.”
Julho 13th, 2007 at 3:31 pm
Ena que saudades!!!
A ver se para a próxima também “a” saboreio… à feijoada, ao convívio e à lembrança dos velhos Domingos :-)
Beijos
Junho 23rd, 2009 at 7:03 pm
emocionei me ao ler este texto…….. talvez porque ja tenha partilhado estas e as outras feijoadas ….. fantastico cunhado.
Junho 25th, 2009 at 10:47 am
terás sempre um prato dela à minha mesa
Julho 13th, 2007 at 4:12 pm
É quando quiseres. E olha que a faço quase tão boa ;)
Um beijo
Novembro 17th, 2009 at 7:12 pm
Tento, à viva força recuperar uma sopa de beldroegas com queijo fresco e ovo cozido… não está a ser fácil!!!
Novembro 17th, 2009 at 7:17 pm
Teresa, tenho a certeza de que já será óptima!
Ou talvez ainda não, mas o que importa é que a gente vá sempre podendo dizer: “eu não, mas havia quem fosse”
Outubro 22nd, 2010 at 4:30 pm
[...] o segredo dessa receita, até porque, como já o devem ter constatado aqui, n’ ”a melhor feijoada do mundo“, ele não está nos [...]