A p e n a s + 1

por uma suave dobra nos lençois

Posted in Anotações, Revisitações, alucinações by Zé on 13 Julho, 2007

O barulho é histericamente metálico. Nunca pensei que os dias morressem com tanto alvoroço. Escorrem gritos pelas paredes e o chão está inundado de azul (o suor dos dias é azul?!)

Porque terão de ser os últimos momentos de um dia pacato de um homem comum tão irrequietos? Não bastaria deixá-los consumirem-se como se também o dia se precipitasse num sono, assim trocando-se de noite? Além do mais esta estridência deveria ficar para os que a merecem, não para os que a ela renunciam. Eu não quero algazarras, quero apenas esta cobardice morna, quero que me assista a possibilidade de ir matando os dias sossegadamente. Não quero ouvir gritarias de um tempo histérico que chama pela minha atenção, nem quero sentir na sola dos pés a humidade do que não traguei neste mais outro dia que agora desfalece inútil. Quero simplesmente ser indiferente a tudo isso, e exijo o direito de não me desinquietar.

E ressoam estas últimas estocadas deste dia assassinado. É-me impossível ser-lhe indiferente. E porque não durmo escrevo, e porque escrevo já não durmo. Ouço-as apenas, aquelas pancadas secas, e julgo eu que as calo escrevendo o que não fiz em memórias, como se o simples correr da caneta pudesse substituir com tiras de tinta os momentos que desperdicei. Como se bastasse juntar palavras em pó e mexer bem até fazer espuma, a espuma dos dias. Recordo agora Boris Vian, e agrada-me fluir nesse exercício de associações que assim me leva para longe deste lusco-fusco moribundo.

Gostava de poder escrever como ele, e escreveria tanto e tão diabolicamente que haveria de calar estas bordoadas arrancadas ao morrer do dia. E escreveria uns lábios, e inscreveria neles um sorriso, e na frase seguinte ajeitaria a prega dos lençóis e antes mesmo do fim do parágrafo redigiria o fecho das minhas pálpebras. E em nota de rodapé descreveria o crepúsculo de mais um dia bonito escorrendo-me dos lábios.

Mas eu não sei escrever assim. E os meus dias continuam a sucumbir incessantemente em lagos de desperdícios, cheios de coisas que não fiz nem tão pouco ousei tentar fazer. E por isso continua sem haver silêncio neste quarto onde repouso. Lá fora é a chiadeira áspera dos travões dos autocarros, e aqui este arrepiar que as garras do silêncio riscam nas paredes do quarto que eu não sei escrever sem ser assim.

Da divisão adjacente declamam-se palavras de uma canção inventada por mim:

Reviro-me uma outra vez na cama.     

Ainda ouço ao fundo o barulho do pasmo     

de mais um dia mastigado no nada,     

a ser geometricamente rodeado,     

pela neblina mole do sono     

com que o cerco.

Depois, finalmente, a noite esconde-me. E eu, ignóbil, nela sorrio.

  

[ rascunhado nos idos de 1996. coisa velha, e ingénua já se vê. nem estou certo do porquê de a ter trazido para aqui. talvez porque este seja já o meu único aforro de palavras, e à prosa velha e perdida  - ainda do tempo, calcule-se, em que rabiscava em papeis – acidentalmente encontrada, e ainda que sem valor, quase até incompreensível, já me custa deixar num canto. Provavelmente, mero coleccionismo de quem vai mergulhando na idade]

7 Respostas

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  1. clara said, on 15 Julho, 2007 at 8:32 pm

    Não gosto da escrita do Boris, mas gosto da tua.

  2. Jill said, on 16 Julho, 2007 at 2:05 am

    Uma delícia para a mente, estes teus dois posts com papéis antigos :)

  3. said, on 16 Julho, 2007 at 1:56 pm

    eu concordo contigo Clara, claro. Só no clarinete é que ele foi um bocadinho melhor que eu.

    (olha, agora a sério: da segunda metade do século passado deve ser um dos meus 5 escritores preferidos, li tudo dele e mais vernon sullivan e o que de mais heterónimo ele teve)

    Jill , sejas bem aparecida. Já sentia falta dos teus ampliados elogios.

  4. claracontodefuga said, on 16 Julho, 2007 at 3:02 pm

    Então experimenta teres um trabalho da faculdade que consistia em, após leitura da “Espuma dos dias” (título genial), teres que desenhar a casa do Colin (da cadeira de Arquitectura de Interiores) com plantas e maquetes, casa essa que ao longo do livro vai sofrendo metamorfoses várias.
    É também demasiado político para meu gosto.

  5. said, on 16 Julho, 2007 at 3:05 pm

    eu de arquitectura de interiores não percebo muito ms se calhar bastava que semeasses à volta da casa uma “erva vermelha” para um tom fora do comum não?
    (o anarquismo puro é a única forma saudável da política)

  6. clara said, on 16 Julho, 2007 at 3:20 pm

    interessava apenas o interior neste caso, a erva não ajudaria. Concordo plenamente com isso, anarquia (se é que estavas a falar a sério).
    Bjs

  7. said, on 16 Julho, 2007 at 3:47 pm

    estava sim
    (uma boa erva ajuda sempre … quer dizer, dizem)


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