por uma suave dobra nos lençois
O barulho é histericamente metálico. Nunca pensei que os dias morressem com tanto alvoroço. Escorrem gritos pelas paredes e o chão está inundado de azul (o suor dos dias é azul?!)
Porque terão de ser os últimos momentos de um dia pacato de um homem comum tão irrequietos? Não bastaria deixá-los consumirem-se como se também o dia se precipitasse num sono, assim trocando-se de noite? Além do mais esta estridência deveria ficar para os que a merecem, não para os que a ela renunciam. Eu não quero algazarras, quero apenas esta cobardice morna, quero que me assista a possibilidade de ir matando os dias sossegadamente. Não quero ouvir gritarias de um tempo histérico que chama pela minha atenção, nem quero sentir na sola dos pés a humidade do que não traguei neste mais outro dia que agora desfalece inútil. Quero simplesmente ser indiferente a tudo isso, e exijo o direito de não me desinquietar.
E ressoam estas últimas estocadas deste dia assassinado. É-me impossível ser-lhe indiferente. E porque não durmo escrevo, e porque escrevo já não durmo. Ouço-as apenas, aquelas pancadas secas, e julgo eu que as calo escrevendo o que não fiz em memórias, como se o simples correr da caneta pudesse substituir com tiras de tinta os momentos que desperdicei. Como se bastasse juntar palavras em pó e mexer bem até fazer espuma, a espuma dos dias. Recordo agora Boris Vian, e agrada-me fluir nesse exercício de associações que assim me leva para longe deste lusco-fusco moribundo.
Gostava de poder escrever como ele, e escreveria tanto e tão diabolicamente que haveria de calar estas bordoadas arrancadas ao morrer do dia. E escreveria uns lábios, e inscreveria neles um sorriso, e na frase seguinte ajeitaria a prega dos lençóis e antes mesmo do fim do parágrafo redigiria o fecho das minhas pálpebras. E em nota de rodapé descreveria o crepúsculo de mais um dia bonito escorrendo-me dos lábios.
Mas eu não sei escrever assim. E os meus dias continuam a sucumbir incessantemente em lagos de desperdícios, cheios de coisas que não fiz nem tão pouco ousei tentar fazer. E por isso continua sem haver silêncio neste quarto onde repouso. Lá fora é a chiadeira áspera dos travões dos autocarros, e aqui este arrepiar que as garras do silêncio riscam nas paredes do quarto que eu não sei escrever sem ser assim.
Da divisão adjacente declamam-se palavras de uma canção inventada por mim:
Reviro-me uma outra vez na cama. Ainda ouço ao fundo o barulho do pasmo de mais um dia mastigado no nada, a ser geometricamente rodeado, pela neblina mole do sono com que o cerco.
Depois, finalmente, a noite esconde-me. E eu, ignóbil, nela sorrio.
[ rascunhado nos idos de 1996. coisa velha, e ingénua já se vê. nem estou certo do porquê de a ter trazido para aqui. talvez porque este seja já o meu único aforro de palavras, e à prosa velha e perdida - ainda do tempo, calcule-se, em que rabiscava em papeis – acidentalmente encontrada, e ainda que sem valor, quase até incompreensível, já me custa deixar num canto. Provavelmente, mero coleccionismo de quem vai mergulhando na idade]
Não gosto da escrita do Boris, mas gosto da tua.
Uma delícia para a mente, estes teus dois posts com papéis antigos :)
eu concordo contigo Clara, claro. Só no clarinete é que ele foi um bocadinho melhor que eu.
(olha, agora a sério: da segunda metade do século passado deve ser um dos meus 5 escritores preferidos, li tudo dele e mais vernon sullivan e o que de mais heterónimo ele teve)
Jill , sejas bem aparecida. Já sentia falta dos teus ampliados elogios.
Então experimenta teres um trabalho da faculdade que consistia em, após leitura da “Espuma dos dias” (título genial), teres que desenhar a casa do Colin (da cadeira de Arquitectura de Interiores) com plantas e maquetes, casa essa que ao longo do livro vai sofrendo metamorfoses várias.
É também demasiado político para meu gosto.
eu de arquitectura de interiores não percebo muito ms se calhar bastava que semeasses à volta da casa uma “erva vermelha” para um tom fora do comum não?
(o anarquismo puro é a única forma saudável da política)
interessava apenas o interior neste caso, a erva não ajudaria. Concordo plenamente com isso, anarquia (se é que estavas a falar a sério).
Bjs
estava sim
(uma boa erva ajuda sempre … quer dizer, dizem)