da malícia das palavras
Aqui não há gente; aqui as pessoas amontoam-se em números, visitas e audiências. Aqui não há realidade; aqui as palavras ostentam-se em outdoors de significados sofríveis mas cuidadosamente arredondados. Aqui não existo; aqui sou mero escriba do que eu julgo que sou. Nada aqui é fiel ao sentido que tem. É um logro da realidade praticado num gaveto que arrendei na internet e encenado no conluio da vontade de escrever, da vaidade de me saber lido e da compulsiva voracidade das palavras. Escrevo na expectativa que convencerei alguém, para que alguém me convença que sou eu assim - escrevo interrogações que afirmo para obter respostas. E sigo palavreando por aqui neste embuste de arquitectura ortográfica, de pormenores imaginosos, de peças com que metodicamente constituo uma identidade e realidade que ignoro mas evoco ser a minha.
Poderia agora negar tudo, bastaria enumerar e asseverar todos os episódios que aqui e além se acumulam. Mas para isso teria de me consentir para além das palavras, e isto deixaria de ser uma fantasia. E nem tenho a certeza que o quisesse fazer. Porque, convenhamos, pensar que nos podemos redesenhar (defeitos alisados e o épico acentuado), é um logro delicioso.
[ E, afinal, o escrever é isso: um momento higiénico onde ajeitamos com cuidadas acentuações ortográficas aquilo que julgamos (fazemos julgar) que somos. ]
Esta fronteira entre o que (julgamos que) somos e o que escrevemos não nos faz redesenharmo-nos, efectivamente, mas talvez ajude a conseguir ver os nossos próprios contornos com um pouco mais de nitidez… ou a ter a ilusão de que o conseguimos :)
Consegues enganar-te a ti próprio?
(podias ensinar-mo… como mera curiosidade académica, é óbvio)
Sabes bem que consigo Cap, pois não é esse o fito da escrita?, escrevo-me como quero, e ficam sublinhadas as arestas que escolhi para os meus contornos, e depois leio-me mais tarde quando quero (e preciso?), e é simples, torno-me nessa realidade que quero fazer de mim. Não?
Jill, é também para ti o que digo ao Cap. Mantenho que não é fundamental que exista sinceridade naquilo que escrevemos de nós. Não tem de haver, e é isso que torna a escrita tão sedutora, essa possibilidade de nos iludirmos sem precisarmos da ajuda de alguém, e sem que isso contudo seja um processo condenável.
Olá
O mau nome é Artur com Malicia no nome…passei por aqui e queria dizer isto
Um abraço
Artur Malicia Correia
Artur, juro que não me referia a si
Um abraço também
‘ … E sigo palavreando por aqui neste embuste de arquitectura ortográfica ‘
E no entanto, um embuste de puro prazer! De parar, sacar do cigarro e bica…. e ler outra vez !!
quem me dera jj quem me dera. cigarros nem vê-los vai para mais de 18 meses! como pode um gajo escrevinhar assim?
Muito verdadeiro…
“[ E, afinal, o escrever é isso: um momento higiénico onde ajeitamos com cuidadas acentuações ortográficas aquilo que julgamos (fazemos julgar) que somos. ]”
Que somos hoje…amanhã poderemos não ser