A p e n a s + 1

da malícia das palavras

Posted in Circunflexões, Pulsações, Revisitações by Zé on 12 Novembro, 2007

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Aqui não há gente; aqui as pessoas amontoam-se em números, visitas e audiências. Aqui não há realidade; aqui as palavras ostentam-se em outdoors de significados sofríveis mas cuidadosamente arredondados. Aqui não existo; aqui sou mero escriba do que eu julgo que sou. Nada aqui é fiel ao sentido que tem. É um logro da realidade praticado num gaveto que arrendei na internet e encenado no conluio da vontade de escrever, da vaidade de me saber lido e da compulsiva voracidade das palavras. Escrevo na expectativa que convencerei alguém, para que alguém me convença que sou eu assim - escrevo interrogações que afirmo para obter respostas. E sigo palavreando por aqui neste embuste de arquitectura ortográfica, de pormenores imaginosos, de peças com que metodicamente constituo uma identidade e realidade que ignoro mas evoco ser a minha.

Poderia agora negar tudo, bastaria enumerar e asseverar todos os episódios que aqui e além se acumulam. Mas para isso teria de me consentir para além das palavras, e isto deixaria de ser uma fantasia. E nem tenho a certeza que o quisesse fazer. Porque, convenhamos, pensar que nos podemos redesenhar (defeitos alisados e o épico acentuado), é um logro delicioso.

[ E, afinal, o escrever é isso: um momento higiénico onde ajeitamos com cuidadas acentuações ortográficas aquilo que julgamos (fazemos julgar) que somos. ]

8 Respostas

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  1. Jill said, on 12 Novembro, 2007 at 10:01 pm

    Esta fronteira entre o que (julgamos que) somos e o que escrevemos não nos faz redesenharmo-nos, efectivamente, mas talvez ajude a conseguir ver os nossos próprios contornos com um pouco mais de nitidez… ou a ter a ilusão de que o conseguimos :)

  2. cap said, on 13 Novembro, 2007 at 3:15 am

    Consegues enganar-te a ti próprio?

    (podias ensinar-mo… como mera curiosidade académica, é óbvio)

  3. said, on 13 Novembro, 2007 at 12:26 pm

    Sabes bem que consigo Cap, pois não é esse o fito da escrita?, escrevo-me como quero, e ficam sublinhadas as arestas que escolhi para os meus contornos, e depois leio-me mais tarde quando quero (e preciso?), e é simples, torno-me nessa realidade que quero fazer de mim. Não?

    Jill, é também para ti o que digo ao Cap. Mantenho que não é fundamental que exista sinceridade naquilo que escrevemos de nós. Não tem de haver, e é isso que torna a escrita tão sedutora, essa possibilidade de nos iludirmos sem precisarmos da ajuda de alguém, e sem que isso contudo seja um processo condenável.

  4. Artur Correia said, on 13 Novembro, 2007 at 5:07 pm

    Olá

    O mau nome é Artur com Malicia no nome…passei por aqui e queria dizer isto

    Um abraço
    Artur Malicia Correia

  5. said, on 13 Novembro, 2007 at 5:12 pm

    Artur, juro que não me referia a si

    Um abraço também

  6. redjan said, on 13 Novembro, 2007 at 10:11 pm

    ‘ … E sigo palavreando por aqui neste embuste de arquitectura ortográfica ‘

    E no entanto, um embuste de puro prazer! De parar, sacar do cigarro e bica…. e ler outra vez !!

  7. said, on 14 Novembro, 2007 at 1:21 am

    quem me dera jj quem me dera. cigarros nem vê-los vai para mais de 18 meses! como pode um gajo escrevinhar assim?

  8. aindecisa said, on 15 Novembro, 2007 at 3:02 pm

    Muito verdadeiro…
    “[ E, afinal, o escrever é isso: um momento higiénico onde ajeitamos com cuidadas acentuações ortográficas aquilo que julgamos (fazemos julgar) que somos. ]”
    Que somos hoje…amanhã poderemos não ser


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