A p e n a s + 1

o vozeiral

Posted in Aproximações, Revisitações, apenas mais um by Zé on 23 Novembro, 2007

Em quase todos os dias da minha infância

… com o cair da noite sentam-se seis crianças ao redor de uma mesa de tamanho invulgar. No seu centro além do pão, do vinho e da água, há um tacho enorme. Entre elas, e de cada um dos lados da mesa, um casal, nem novo nem velho, vai distribuindo pelos pratos doses medidas de acordo com a idade dos miúdos. Todos começam ao mesmo tempo quando a mãe finalmente se senta e dá mostras de também ela se ter disposto para jantar. Como se por sinal invisível, de súbito, uma, três, cinco, vinte histórias começam a desenrolar os episódios do dia de cada um. Não à vez, mas de forma sobreposta. Todos parecem ter essa capacidade de falar e escutar várias conversas ao mesmo tempo e de saltar de umas para as outras com a ligeireza de passarinhos em seus galhos. Por vezes cresce tal a algazarra que o pai faz sobrepor a sua voz, abrandando-a. Depois tudo recomeça de novo, uns em crescendo ao quase brado, outros, mais novos, pouco mais arriscando que um sussurro. E é assim, como num jogo, que vão coleccionado os acontecimentos narrados nesse zoar comum a que chamam ‘vozeiral’. No fim da janta apanha-se a mesa e a vida de cada um, de tão contada, torna-se comum aos outros. Mais um dia feito de tantas partes. É uma sorte ser criança numa família tão grande, e poder ter tantas vidas ao pé da nossa quando chega a noite.

Hoje, quando se juntam, à volta destas seis crianças sentam-se mais os seus dez filhos, e a mãe, e o vozeiral continua. Depois de tantos anos ainda estranham não ouvirem já ser lhes pedido para que lhe afrouxem o tom. Mas o vozeiral continua. Continuará sempre. Com todos.

4 Respostas

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  1. Duarte said, on 24 Novembro, 2007 at 3:06 am

    bonita homenagem ao que fazia sobrepor a sua voz…

  2. Liliana said, on 27 Novembro, 2007 at 3:24 pm

    Fez-me lembrar os jantares em casa da minha avó (que tem dez fulhos). Apesar de nem sempre se juntarem todos os filhos, os netos, bisnetos, genros e noras ajudam a encher a casa…
    É por estas coisas que gosto de uma família grande…

  3. cláudia said, on 28 Novembro, 2007 at 3:11 pm

    bonito, zé. laços e mais laços. daqueles indestrutíveis.

  4. said, on 29 Novembro, 2007 at 1:15 pm

    vejo que o vozeiral vos chegou aí por onde passavam. um barulho às vezes exagerado, não liguem, miudos, muitos, algaraviadas.
    obrigado por passarem tão perto do som/tom destas ‘conversas’


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