das coisas da escrita
Quase não queria acreditar quando ontem, em conversa que surgia espontânea, me ouvi dizer que “sobre isso (isto) do escrever já algo de próprio terei escrito”. Terei aí percebido essa soberba de quem escreve, capaz de parafrasear hoje com presunçosa firmeza sobre aquilo que ontem em arrepios de incerteza terá discorrido, como se, assim distante, se despisse da sua própria carne. Bruscamente, uma desconfortável vergonha ter-me-á impedido a tempo de o fazer, graças a deus, e lá terei voltado ao presente, à conversa, ao respeito que me merecia o meu interlocutor, pelo que a (auto)citação se terá deixado ficar nos recônditos da pedante memória. Há soberba sim nisso de acharmos que o que remotamente teremos pensado ali, noutro instante, se pode prestar agora. Como se pudéssemos assim valer-nos do que já fomos para nos substituir-nos naquele momento em que outros nos escutam. Como se pudesse haver algures uma razão que ousasse justificar isso de querermos fazer de nós um homem em diferido.
Aqui é diferente. Aqui posso tudo. Aqui escrevo sozinho e pouco me importa se me repito, se me duplico, se me tenho mais uma vez em diferido. Posso até dar-me ao luxo de aqui citar o que já terei escrito conferindo-lhe a importância que só eu acho que terá. A soberba aqui é ainda minha, mas só minha, não carecendo de ser desculpada.
L., tu que cá não vens, a ti posso agora dizer – era isto que citaria, se ousasse fazer de mim um embuste de mim:
Os comunicadores puros preferem o ruído, as vozes, a agitação dos gestos e das expressões, e nisso se saciam e concluem. Os que escrevem preferem o silêncio e o recato, e aí lançam na escrita o que normalmente calam, num exercício onde tentam reconstruir o que lhes ficou por dizer. É um lugar de resíduos do que não chegámos a falar ou a fazer acontecer, um espaço para onde se trazem as coisas incompletas cujo fim não ousámos ou não conseguimos concluir.
A escrita é a linguagem dos tímidos e dos ávidos.
Bah! Estou farta de fazer isso, essa tal que chamas “soberba” (”ora perái que eu já escrevi sobre isso, momento que já aqui pasto o link”). Mas qual soberba, criatura? É espírito prático, mais naquela “se eu já escrevi sobre isto, escuso de me repetir”. Ou não é?
e agora a parte da tua auto-citação. Sim. E não. Tens toda a razão. Mas os comunicadores puros que prezam o ruído etc e tal, também podem querer escrever. Não é só a comunicação dos tímidos. É *outra* comunicação. Outro tipo. Outra loiça. Olha, é mesmo outra loiça. É como se, em vez de usares os pratos de todos os dias no tabuleiro a fazer zapping e com os pés em cima da mesa e os talheres desirmanados, com um guardanapo de papel, quisesses sacar os cristais e os linhos (é memo imagem de gaja, benza-me Deus!) e as pratas do armário lá do alto. Não condizem com o tabuleiro, tazaber? Mas queres usar à mesma. Então, escreves. Há coisas que um gajo, pura e simplesmente, não diz. Não diz. Não se diz. Não faz parte da comunicação oral. Mas pode escrever.
E mais. Só consegue – agora falo por mim – ser verdadeiramente cristalino na escrita, se for em texto. Em post, artigo, o que quiseres chamar. Quanto mais para a geral, mais para dentro, mais focalizado no destinatário, seja ele quem for. É por isso (também, ou principalmente) a razão porque temos blogues intimistas (que nome abichanado, mas é o que é).
(ah – eu hoje tou chata -e aquela parte do “não se diz”, não tem que ser forçosamente por timidez. Pode ser por recato, decoro, porque dizendo alto torna-nos absolutamente ridículos aos nossos próprios olhos. Nós não somos gajos de dizer essas merdas alto, pá. Mas escrever, ok, tá-se.
mas ficarás menos exposto com a escrita do que com o ruído instantâneo? não creio. quantas vezes posso ler o que escreves e entrar na interpretação microscópica. grita-me ou escreve-me, com qual mais me atinges?
sento-me à tua frente e procuro o que escreves-te, não me lembro do que disseste.
para escrever e mostrar, é preciso muita “lata”…
catarina 1. não falo da citação escrita, falo da citação quando supostamente devenmos apenas usar a espontaneidade, assim se espera
catarina 2. “… a escrita é a linguagem dos timidos e dos AVIDOS” onde se incluem aqueles que por natureza precisam de comunicar. e mais aqueles que por natureza comunicam para alem de todas as formas e seria um desperdício que assim não o fizessem. e nestes se incluem, vamos lá, para não personalizar,algumas catarinas.
catarina 3. (é que estás mesmo. mas pronto, concordo contigo, nesse (nisso do) véu da escrita)
e o que é que da minha escrita podes tomar por verdade duarte? é a escrita assim tanto d’isso de olhos nos olhos? sei que sabes, melhor que eu, que a escrita é meia da verdade de quem a escreve e a outra metade da verdade de quem a interpreta. esse véu é o que basta aos tímidos. o outro o que serve aos ávidos. em nenhum dos casos, porque continuamos a ficar só pela metade, é preciso grande “lata”
Olá
Acho que concordo…lembro-me de escrever muito mais quando não tinha com quem falar ou quem me compreendesse, pessoas a quem eu espelhava eco…. hoje escrevo muito pouco porque se escrevesse repetia o que já transmiti com o som das palavras e não tinha o feedback instantaneo que tive… que me satisfez.
pois eu não sei se concordo com a tua concordância Margarida. é verdade que em mim (presumo que em todos) a escrita será mais profícua em fases de maior interiorização, mas estas não correspondem necessariamente aos períodos em que converso e socializo menos com os outros … acho que até será ao contrário. e também não sinto que esgote a escrita, embora certamente me repita e seja até muito espirialífico (enfim, por vezes até invento palavras) nos temas que gosto de escrever, mas isso não faz com que sinta que terei esgotado a escrita por repetição. o que aqui, lá em cima, no texto, pretendo dizer, é que de alguma forma considero traiçoeiro trazer as palavras que tivemos oportunidade de inventar e organizar no mundo da escrita (o diferido) para o mundo espontaneo da verbalização, onde os outros, de carne e osso, têm o direito de também poder interpretar os nossos repentes, as nossas hesitações, os gestos com que torcemos as mãos quando não encontramos a palavra certa, os nossos silencios atrapalhados, etc (muito mais do que aquilo que se reflecte das palavras, e muito mais ainda que aquilo que trazem somente as palavras quando escritas, sem voz), pois é tudo isto que fala quando verdadeiramente conversamos com os outros.
e tu amiga Catarina, percebeste agora tb o que eu queria dizer? ;) … perdão, escrever?