o homem com voz de castelo
10 anos quase, e continuo sem preencher o espaço que a sua voz ocupava em mim. A princípio era dor apenas, mas tão ardente que não sobrava discernimento para perceber que ele tinha levado consigo, irreparavelmente, algo de mim. Depois a sua ausência, com os dias que se sucedem aos dias, foi-se atenuando. Com o passar dos tempos aprendi a saber viver com ela, sem ele, ou melhor, com ele ausente. Não estava era preparado para lidar com essa caverna que ficou cavada em mim. Um espaço estranho, soturno, desabitado, que agora carrego comigo inutilmente. Como se um lugar da minha personalidade que subitamente se tivesse emudecido, um lugar dentro de mim onde me habituara a encontrar com ele, onde se me treinou a vida, e onde de forma tão sublime ele me foi mostrando com o seu exemplo a perseverança, a ética e o amor-próprio. Esse mesmo lugar que depois de ele partir se transformou num ringue abandonado. Não fiquei um homem absolutamente mau, nada disso. Sei que tenho coisas boas, e outras que evoluem já só por inércia das coisas que com ele aprendi, mas há muitas coisas de mim com que nunca saberei lidar sozinho. Presumo que alguns de nós se terão resignado a crescer lutando sozinhos com todas as partes de si mesmo, mas eu tive a sorte de poder ter tido um treinador para me ensinar algumas partes do que sou hoje. Um treinador que partiu antes do fim do treino. E fiquei interrompido.
A verdade é que somos preparados para perder e substituir afectos, mas ninguém nos precaveu para a perda insuprível de alguém que ocupa tão verdadeiramente parte de nós que nada do que nos possamos orgulhar tem sentido se não lhe pudermos dizer, e se não lhe pudermos dizer quase nada do que façamos nos fará ter orgulho. Terá sido essa parte talvez, essa que me deveria fazer com que me conseguisse admirar, que terá ficado por adestrar? A ausência não mata. Mas há vozes que nos são tão próximas que precisamos de as escutar para nos percebermos melhor a nós mesmos. E essas, quando se calam, matam para sempre uma parte de nós, a parte com que através delas nos contemplávamos.