viagens curtas entre o orgulho e as gargalhadas
Ontem à noite. Voltamos de um arraial e corre a conversa dos estudos, das provas globais que se aproximam, do péssimo rendimento e comportamento da turma e dou comigo já quase exaltado a repetir o que a directora de turma às tantas disse na reunião com os pais. Desfio também eu as palavras, recordando-as à medida que as vou contando. A certo ponto paro, recomponho-me e acabo até por rasgar um sorriso. O ambiente adoça-se pelo tom das minhas palavras quando continuo:
- Mas devo dizer que no meio desta tristeza geral dos pais não pude deixar de sentir uma certa alegria, orgulho até, em ti, Francisco …
- Em mim? – Interpela ele interrompendo-me bruscamente, interrompendo-se, embasbacado.
- Sim – ele aprova muito estes sins que lhe custam a ganhar de mim, e por isso gosta de os ouvir confirmados – a Professora fez questão de referir ali a todos os pais que “no meio desta balbúrdia de comportamentos havia casos positivos, de meninos com um comportamento correcto, que ali quase eram heróis”. Silêncio total no carro, cada um a preparar-se para saborear à sua maneira a continuação da história.
- E sabem o que disse a professora: “Por exemplo o Francisco… “ – aqui pauso um pouco, também eu a saborear as suas expectativas - “… podem chover uma trovoada de vozes, podem voar borrachas pela sala mas, quando ele quer falar, põe o dedo no ar, e no meio daquele tumulto aguarda pacientemente de dedo no ar até que o professor lhe consiga dar autorização de falar!”
- A sério Francisco?! - intervém a mãe, orgulhosa.
- Mas o pai não sabe porque ela disse que eu era um “herói” …
- Sei sim, ela explicou antes, questão de educ…
- Não – e ri-se, ri-se cada vez mais, mesmo sabendo que iria perder créditos não conseguiria nunca deixar de contar o que já se lhe avançava na cabeça – vem de um dia em que eu pus um dedo no ar e depois já não me lembro de mais nada …
…
- … e acordei com a professora a dizer “super-homem!, super-homem, não querias perguntar alguma coisa?”, e a turma atrás a rir. Ele percebeu que nós hesitávamos em entender a história e foi adiantando, já em jeito de desculpa – Oh pai, foi à primeira hora e eu estava cheio de sono. E já estava assim há tanto tempo que a cabeça me foi descaindo pelo braço. Quando a professora chamou por mim era assim que estava, com o braço sobre a mesa apontando para a frente e de dedo esticado. E no meio da risada geral descontrolada, o carro quase que se parando em cima do passeio, ele ainda insistindo em concluir a imagem – … como o “super-homem”!
- Agora és o dorminhoco lá da sala não? – avança o Diogo lá de trás também.
- Não. Já fui o “Soneca” , mas agora o “Soneca” é o Pedro.
- Porquê? – nós os três em coro, quase até indignados perante a hipótese de lhe ter sido retirado tal mérito.
- Um dia ele estava a responder a uma coisa qualquer que a professora lhe tinha perguntado, mas assim meio gaguejado, e depois as pálpebras começaram a tremer-lhe e ele calou-se, e quando a professora lhe disse para continuar já ele estava a dormir.
- Ah, está bem. – Era o que poderíamos ter dito a concordarmos então com a troca do galardão. Mas entretanto chegámos a casa. O que me vale é que estas viagens de carro são curtas.
“Até onde vais com 1000 €?
Este blog começa assim a 1 de Janeiro deste ano:
2 amigos
2 bicicletas (emprestadas e de supermercado)
1000 euros cada um
Objectivo: Dakar
Até onde será que vão com 1000 euros?
Depois os dois amigos partem e o blog segue contando a sua singular aventura. O blog ainda não se cumpriu, porque estes dois companheiros ainda não voltaram (hoje estão em Zouerat, na Mauritânia, a caminho de Dakar, e já só têm 200 euros), e por isso, após quase cinco meses, nele se continuam a reunir regularmente as suas epopeicas crónicas da viagem.
Na brecha de tempo em que acabei o curso e ainda não me tinha comprometido profissionalmente cheguei a agendar com um colega a nossa viagem no Transiberiano. Nunca a cheguei a fazer e embora hoje não dê importância de relevo a isso sei que sobra daí um travo amargo que me irá acompanhar toda a vida. Por isso, quando vejo gente partir assim, rasgando o aconchego envolvente das nossas rotinas, torno-me um indefectível adepto. Tenho quase a certeza que convosco se passará o mesmo, porque em todos nós, com mais ou menos expectativas aventureiras, houve sempre uma viagem que, mais do que as outras, ficou por fazer.
[ à especial atenção do meu velho amigo Duarte - o viajante ]
e ainda dizem que este é um blog parado
só na ultima semana já publiquei a média de um post por dia !!
… e com este até já vai em mais que isso
Nunca me deram tanto gosto uma boa comida e uma camisa macia. Nunca alguma vez suporia de quão bem me rodearia dos meus amigos e os saberia manter. Nunca terei sentido tanta turbulência na minha vida profissional. Nunca me poderia reconhecer sem aqueles com quem hoje vivo. Nunca tinha soçobrado sobre os meus limites. Nunca me julguei tão importante para mim e para aqueles que me são importantes. Nunca pensei que viesse a sentir tão completamente este ter de voltar a olhar tudo pela primeira vez, outra vez. E nunca pensei que isso me trouxesse tanto estímulo. Saber que afinal não me sinto cumprido.
eu não sei se já tinha alguma vez
publicado este pequeno esboço?
ai já? mas também não é preciso responder com esse tom de fastio, caramba!
então e esta bela natureza morta?
ai também já? de certeza que era esta? e já tinha dentada antes? ah pois, pois claro que é preciso estar com atenção a estes pormenores subtis da arte.
desperdiço-me!
mas não faz mal. seja como for os desenhos já cumpriram a sua função e agora podem ir dormir junto dos outros bonecos.
é que mandou-se-me para as letras uma coisa qualquer, de texto lacrimoso, que quero publicar, mas acontece que aquilo é assim um bocado pró viscoso
e ficava uma grande mariquice se o postasse aqui pertinho da foto de baixo.
queres ser meu amigo, click, quero sim, click, click
Primeiro foi o amigo Zezé que lá se foi escusando publicamente com a sua desajeitada imperícia nesta coisa das informáticas, nisso vendo-se até obrigado a interromper o formalizado silêncio na emissão que ainda pouco antes tinha proclamado. Mas depois dele tem sido um vê se te avias de manifestações de amizade! ele é gente com blogs, gente até sem blogs (que ‘eles’ ainda há) … a todos eles quero desde já afirmar que têm um lugar próprio no quadro das minhas amizades.
Pois sim, meus amigos, aceito a v. declaração de amizade. Mas, por favor, deixem lá o hi5 de fora destas nossas simpáticas investidas emocionais, que a esse não conheço de lado nenhum.
pela calada da noite
Dormem já cá por casa e o cansaço arrasta-me nesta moleza de me ir deixando ficar. E no entanto agarro-me a isto, a esta coisa que se escreve e que não sou capaz de suster. Vem normalmente assim, em ímpetos, fazendo alarido por cima das afáveis rotinas, e vem vestida de vontade súbita, dominadora e estridente. E é assim que me prende, submisso, apoderado, redigindo, expectante. É aliás assim que agora estou, a ver-me de fora amarrado em gestos robóticos de escrita, incapaz de presumir a linha que aí vem, a palavra, até a letra.
Raramente me apercebo logo desta intrusão mas desta vez deixei a minha atenção entreaberta, nessa penumbra da consciência de onde ainda se olha mas já nada se opõe. Apenas o suficiente para me envergonhar do primitivismo que neste corpo se embala, e que depois me percorre e se escoa até à ponta dos dedos, dos quais me soa este matraquear oco e louco que os anima nessa tosca necessidade de preencher uma linha mesmo que vazada de significados, só pela ânsia de me saber indelével.
E assim, ainda que entorpecido, vou percebendo que isto que me invade, desenfreado, mais não é que a capa da vontade criativa, essa coisa que na modéstia uns dizem ser rasgos e outros, mais sinceros e reflectidos, apelam a utopias acerca da eternidade. Mas aqui, em mim, mesmo sem mim, nada disto terá a ver com o artístico, isto, apenas um burilado em bruto, talvez o mesmo ímpeto, mas por esculpir, a fazer arrastar pinceladas descuidadas de uma arte que nunca cuidei, nem nunca terei. Mas criativa, sim, essa vontade de crivar de negro riscado aquilo que de outro modo nunca sairia do nada e de por baixo poder assinar, ainda que negando essa pretensão de cuidar que fica para além de mim.
E é isso, essa ânsia desajeitada de me querer fazer parecer além da pele, trazendo para a luz do dia o folgar do pensamento, a apressada e errática definição das coisas que só dentro de nós ganham sentido, sem a qualquer pouca-vergonha que certamente recomendaria as abafássemos antes de as fazer ecoar cá fora, aqui, onde outros nos podem escutar. É isso que de olhos semi-cerrados me espanto de olhar em mim, esta coisa de louco que mais do que pretender fazer sentido faz de mim mera máquina do escrever. Que, sei-o, pouco ‘lhe’ importa a qualidade do que diz mas tão-somente esta vontade de se fazer ouvir. Emitir. Emitir. Ficar.
…
É tarde. Eles já dormem e eu bocejo mais uma vez. Aproveito agora um momento de desatenção disso desse que há em mim para fechar esta linha. É sempre assim que acabo por me deitar, ensonado, e atrasado, demasiado atrasado. Tão atrasado que como quase sempre acabo por perder esta oportunidade de levar comigo as coisas que devia calar, de as fazer mergulhar comigo no sono, aí onde toda a gente normalmente as semeia, e por aí, dentro de si, caladas, as deixa ficar.
cansado
Apetecia-me agora parar, e poder ir … até aqui. Zarpar. Bastariam um ou dois dias, um turno da noite, uma bolina bem lançada . Depois enrolava a genoa, arrumava a palamenta e voltaria para continuar zelosamente a tricotar esta vida antes mesmo de alguém dar pela minha falta.
a vida é uma propriedade demarcada pelas estremas da nossa intimidade
Registo que há tanta coisa na minha vida que gostaria de ter resolvido antes de o vir a saber. E é por isso que (por mais que me consuma) me finjo inquebrantável perante os percalços que lhes atravessam a vida e que eu tão fácil ajudaria a resolver, e … não posso. Não posso. São eles que o devem fazer. Esse caminho que devem percorrer para aprenderem a resolver as suas coisas antes de as saberem perdidas. Que a mim não me cabe encurtar-lhes respostas, como essas que tantas vezes senti faltar. A mim cumpre-me respeitar o tempo que lhes é devido para mastigarem a vida, (e fincar-me) à distância possível
… felizmente, com algumas excepções que a minha condição de pai traz ao livre arbítrio.


