A p e n a s + 1

ai se soubesse … a poesia

Publicado em Conversações, Irritações, Navegações por Zé, em 19 Junho, 2008

 

Os livros anteriores ficam assim reunidos neste, e só eles (nesta versão) podem ajustar contas com o juízo do leitor e com o do autor, que é avesso a falar de poesia, por entender que não se trata de literatura. Poesia é sempre outra coisa, fica sempre mais além. O verso ideal, por isso, não devia escrever-se.

Francisco José Viegas sobre o seu livro “metade da vida”

 

Eu, se o soubesse, era assim que o teria dito, mas provavelmente sem a elegância que se reconhece ao FJV. Antes que me resumisse neste texto e lhe pusesse um ponto final, incapaz de controlar esta verve antipática, já estaria a acrescentar algo como:

Delicia-me a poesia do sublimar das emoções, a inteligência dessa síntese do falar, a estética do cuidado com que se inventa a melodia das palavras, a mensagem escrevendo-se na forma, a forma fazendo-se mensagem, tudo isso fazendo-se encantamento de uma arte só ao alcance de alguns. Não falo só dos FP e dos JGF e de um punhado de outros poetas que merecem a minha preferência, nem pretendo endeusar tais dotes. Conheço gente a quem não recearei apontar tais dotes e neles admirar essa extraordinária qualidade que tecem não apenas para se expressarem, mas também para se ajudarem a sentir.

Mas em contraponto confesso que me irrita o ridículo dos que a usam como forma abreviada do escrever, como se uma estrofe servisse apenas para resumir, para esconder o que nada mais temos a dizer, como se um verso fosse afinal mera hipótese de pouparmos as palavras, quem sabe evitando envergonhados erros ortográficos, como se um poema mais não fosse do que um exercício sobre interrogações fortuitas, quiçá transformando-nos num autor misterioso. Mas o que se torna verdadeiramente insuportável é ter de assistir àquele exercício de rimas com que insistem e insistem como quem bate num tambor.

4 Respostas

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  1. meri said, on 19 Junho, 2008 at 3:12 pm

    Lá tive que ir buscar a lupa para ler!
    Valeu a pena, como sempre.

  2. cláudia said, on 19 Junho, 2008 at 4:55 pm

    sinto-me honrada!

    :)

    (a poesia também se encontra por aqui)

  3. maria arvore said, on 19 Junho, 2008 at 10:30 pm

    O último parágrafo é autêntica poesia. :)

    Uma melodia que flui naturalmente do rio para o mar.

  4. said, on 19 Junho, 2008 at 11:03 pm

    nem me fales em mar Maria Arvore, nem te atrevas comigo já tão perto! ;)

    Claudia, poesia? aqui? tu não me assustes. E rima? ;)


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