a dobradinha (1974)
O texto que se segue foi originalmente publicado na Olivesaria há umas semanas atrás. Há uma razão especial para o trazer para aqui hoje, mas essa, ao contrário do texto, já é mais dificil de partilhar. Fica a história.
Ao fundo da rua espraiam-se bólides de madeira, quase duas dezenas. Estão pintados de todas as cores e imitam os carros do Fittipaldi, do Stewart, do Cevert, do Ickks com um rigor quase ‘veneratório’. Em redor deles há uma multidão de miúdos e graúdos tão tumultuosa como as que se vêm nas grelhas de partida das corridas que ali se imitam. Há razões para isso. Estes carrinhos de esferas são especiais e enchem o olho de todos os que se habituaram a vê-los como mais que mera tábua com rolamentos. Têm dimensões regulamentadas, inspecções técnicas rigorosas, cargas escondidas para dar lastro, ailerons, bancos e asas, segredos na lubrificação dos rolamentos, mas sobretudo são um primor para os olhos, assim todos aperaltados no início da Rua 5, debruçando-se sobre a descida que os fará competir. Já todo o bairro por ali sabe que em fim-de-semana de grande prémio haverá corrida de carrinhos de esferas no domingo pela manhã e por isso ali se juntam entusiasticamente para admirar a competição .
a rapariga loura da livraria dos restauradores
Há muito tempo que nada linko – vou simplesmente lançando prosa eremita neste espaço de cercas altas onde me realojei há quase dois anos e ao qual comecei por suprimir ligações internaúticas e outra aparelhagem estatística. Fugia então do barulho, das interligações desproporcionadas, de um propósito generalizado de socialização virtual que no meu caso não era pretendido, e depois, das absurdas e claramente excessivas manifestações de afecto e proximidade de pessoas a quem nem sequer conhecia a cara. E porque o que aqui me continua a prender ainda é a escrita situei-me (sitiei-me) aqui na esperança de não voltar a sentir o gozo do escrever ser de novo escravizado pela necessidade compulsiva de me sentir lido.
Mas nada tenho contra os links, o link-vereda entenda-se, esse que nada tem a ver com as auto-estradas de leitores e reciprocidades com que se faz trânsito nesta blogosfera sábia, orgulhosa e barulhenta a que nada tenho para dar. De entre estas veredas que por vezes daqui se lança o Ma-schamba do Zezé irá ser(me) sempre o primeiro espaço a sugerir aos meus escassos visitantes. E este seu post não poderia impor melhor razão para ser linkado. Não porque eu seja um devoto leitor do João Ubaldo Ribeiro mas porque não poderia perder a oportunidade de, mesmo que traficando as palavras dos outros, lamentar a minha (quasi)eterna condição de obcecado pela rapariga loura.
da escrita canhota
Nunca antes esta minha actividade bloguista se viu tecida tão laboriosamente. Nunca um parágrafo tinha aqui sido escrito com palavras tão cuidadosamente construídas. Nunca um texto meu havia sido grafado de forma tão carinhosamente soletrada. Não me lembro aliás de alguma vez uma ideia ou simples rasgo de história ter sido mastigado tão prolongadamente antes de ver o branco para onde se deitaria texto. Na verdade estas 6 linhas que aqui deixo, reluzentes, demoraram-se a parir mais do que a maior narrativa que alguma vez aqui publiquei.
Em suma, impor-nos a escrever com a mão canhota pode ajudar a dignificar a actividade criativa e a poupar-nos aos rubores dos erros ortográficos filhos da pressa.
fora de serviço
Há imensas coisas que se tornam impossíveis de assegurar sem o braço direito (algumas das quais até indispensáveis ao saudável equilíbrio de um homem, essas em particular e mais acentuadamente nos praticantes do celibato). Aliás, são quase todas. Experimentem calçar uma meia só com a mão esquerda e compreenderão então o quão degradante se tornou a minha condição humana. Escrever é também outra das actividades mais intransigentemente negada, sobretudo áqueles que como eu têm a canhota completamente trapalhona e inútil. Quem segue este blog e quem já ‘ouvia’ no outro as minhas lamentações lançadas a público, sabe que não passa um ano em que não arranje uma mazela para me estragar as férias. Mas desta vez deu forte caramba!
Resta-me aguardar estoicamente o veredicto final para saber se ainda vou ter de levar ferros ou se a coisa fica só por me estragar o verão.
caminhando no céu
a leveza

de um salto
com 5 metros de altura
[ ainda Idhra, Junho de 2008]
Sempre próximos e anichados em matilha e porém até no balanço que tomam, na forma como se suspendem nos ares, até na expressão intrépida com que se preparam para o impacto na água, as suas personalidades se revelam tão distintamente.
ode à preguiça
O calor deixa-me prostrado, pobre de mim. Opino, planeio, reflicto, sentado chego a cogitar o dia inteiro sobre as coisas que deveria já estar a concluir e que a minha consciência substitui por ideias, planos e reflexões, sentadas. Tudo em mim se passa sentado, no verão. O verão deveria ser apenas a canícula, e uma sombra, para lá deitar o meu ócio. Mas não, que nesse lambido calor que ele nos traz parece que tudo nasce só para se tornar mais um impasse. Nada porém que me atormente, que essas coisas que assim se atravessam, que se deixam ficar por resolver, são o adubo sobre o qual semeio a minha preguiça.
Que a preguiça se vive assim, só se desfruta verdadeiramente se for trocada por algo que ficou por fazer, e é tão mais saborosa e delambida quanto a urgência das coisas que afastamos para o lado.






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