A p e n a s + 1

Posted in Aproximações, Navegações by Zé on 11 Julho, 2008

Um de nós não disfarçava ter deixado ‘demasiada’ gente em terra. Sentava-se no banco da proa, nos intervalos do nosso barulho, dos nossos risos, das nossas conversas e ficava por lá olhando para diante, respingando-se de mar. Depois voltava para nós, bucólico, com o seu eterno sorriso de criança, como que para reatar a nossa companhia. Olhava-o pelo canto do olho a voltar enquanto ía dançando no embalo do barco e de sempre que o fazia percorria-me a ilusão de ele voltar mais adulto. E isso acontecia todas as vezes em que ele se abrigava lá na proa e de lá voltava. O mar engana.

O mar engana: transforma-nos tão subitamente que chega a fazer-nos duvidar daquilo que agora somos. Já em terra, reflectindo nisso, até admito que num adolescente apaixonado ele possa provocar uma transformação tão profunda que aos olhos de um homem céptico isso tenha de ser vestido de ilusão.

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. cláudia said, on 14 Julho, 2008 at 11:11 pm

    inspirado e de olhar atento. uma bela prosa para uma observação comovente, Zé.

  2. said, on 15 Julho, 2008 at 11:21 am

    há muito tempo para se olhar num barco cláudia, há sobretudo muito tempo para isso


Deixe uma Resposta