epidermes
E depois há a questão dos feitios. O feitio é a superfície da nossa personalidade, a película que a envolve como uma roupa que agasalha a nossa verdadeira natureza. Mas a diferença, fundamental – e é isso que por vezes o torna odioso - reside no facto de ser um traje que não conseguimos despir mesmo que o queiramos.
juntando o pó
Já tão pouco se me impele a caneta, já tão breves os impulsos de inventar palavras, já tão esparsas as memórias que arrasto para fora de mim, que os poucos laivos que casualmente ainda vou deixando por aí, cioso e desavergonhado para aqui os vou trazendo.
Correrão depois mais uns dias no calendário até que este espaço volte a parecer desocupado e durante uns tempos não me importarei que se o tome como uma parte de dentro de mim. Depois sei que voltarei, preocupado, alardeando fertilidade, deixando outro algo que possa parecer mais escrita de punho fácil. E hei-de voltar uma e outra vez depois ainda, como quem alimenta os peixes de um aquário herdado a que já não acha graça.
Por mais dificuldade que tenha em reconhecê-lo vou descortinando o que me continua a aprisionar aqui, o que me impede de lhe prestar um fim misericordioso. Há uma estranha alquimia que se vai formando depois de começarmos a escrever-nos perante os outros. Há uma parte de nós que inexoravelmente se enquista nas palavras em que nasce e não mais as abandonará. Passará a existir somente neste território que partilho com os outros – são eles que a credibilizam – e por isso, querer manter essa parte de nós, significa fertilizá-la com novas palavras, sempre e sempre. Parar de escrever torna-se assim, de certa forma, o anúncio da morte dessa parte de nós, a que construímos com aqueles que nos lêem. E por mais abstracta e volúvel que seja esta morte a verdade é que, deixando de acontecer diante de outros, haverá uma parte que deixará de existir dentro de mim.
E segue o tal texto-bóia . Mais uma ficha, mais uma volta!
Uma fileira de prédios, uma rua, escadas onde se emparelham crianças. Um estádio com relvado de cimento, tardes poeirentas, joelhos esfolados, heróis e ciganos que roubam bolas. O bairro a ficar mais comprido e novas escadas, mais gente. Corridas e calores tensos de fim de tarde. Já bandos de miúdos, já se escolhem amizades. Sobem risos e berros cortando o zumbido das horas que passam sem nada fazer. Motas, namoradas, façanhas e regressos gloriosos. Mortes. A vida a crescer, a fazer-se valer. Coisas que se contam em conversas preguiçosas pelo fim das noites entre cigarros, ganzas e grandes amizades. Desfiam-se licenciaturas, artes e outros jeitos que cada um inventa a fazer o seu futuro. Partem dali muitas estradas e os fins de tarde são agora mais distraídos. Já só por acaso as escadas os juntam, barbudos, até carecas, quase sempre de passagem. A cidade de fora cresce, engole-os, uns não voltam, nem tão-pouco se despedem – de quem afinal? outros mais tarde retornam sem avisar. A vida esticou-se e partiu-se em muitos pedaços diferentes e os miúdos, crescidos, ficaram distantes. Visitas de fins-de-semana, bicas, histórias e reencontros rápidos, quase só acenos.
Uma fileira de prédios, uma rua. Escadas. Ouvem-se risos. Alguém na pressa do passar espanta-se de ouvir ali crianças. Mas não. Naquelas escadas já não. Hoje em escada alguma. Haverá outros pousos, pensa. Haverá? Depois vira ao fundo no cruzamento e pára. Um semáforo! Nenhum outro carro pousou perto dele e ninguém lhe viu a interrogação, dentro de si, envelhecer.
O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.
Mia Couto
bolas de berlim com areia
Já Setembro. Família alastrando-se pela Meia-praia. Talvez uns vinte. O primeiro círculo ao redor das toalhas é ocupado pelos mais novos. Vão saltitando de satisfação enquanto comem as bolas de berlim, esse sempre ansiado ritual diário que é fornecido pelo já grande amigo deles da cesta de vime. O mais pequeno, nem 3 anos, subitamente estaca e abre muito os olhos. Vira-se então para os adultos, boca muito aberta de incredulidade e pintalgada de açucar até às bochechas e o dedo mindinho no ar clamando por atenções:
- Esta bola faz barulho! - e nisto encosta-a ao ouvido e chocalha-a. Perante o espanto de todos, insiste, buscando confirmação, e segue bramindo-a em gestos já quase irritados para baixo e para cima, para baixo e para cima. Nada. Decepcionado lá vai adiantando:
- Assim não faz, mas quando eu a mordo faz barulho. Faz, faz! - e os olhos muito esbugalhados, querendo explicar o barulho … dos grãos de areia mordidos.
palavras com um abraço na ponta
Ninguém conseguiu ainda deslocar o centro de gravidade para fora do seu corpo e contudo quase todos nós julgamos ser isso possível. Quando falamos dos outros, e para os outros, somos capazes de propagar opiniões tão fervorosamente que nós próprios nos convencemos da inquebrantibilidade desses alvitres. Como se subitamente pudéssemos invadir a vida dos outros, vesti-los, deixar-lhes bem vincada a nossa prescrição sobre os caminhos que eles devem trilhar. Arrogamo-nos então de amigos, de confidentes, de indispensáveis conselheiros e levamo-nos tão a sério que na maior parte das vezes, por entre os nossos mugidos arrogantes, nem percebemos que o outro não procura em nós a nossa fala mas simplesmente o nosso ouvir. Depois quedamo-nos com o sentido de dever cumprido, a satisfação de ter sido um bom amigo, escutado, e tomamos os nossos palpites como algo de valoroso, e a nossa atitude como um profundo e custoso gesto de amizade. “Por muito que me custe dizer-te, por muito que me custe …” como se o difícil fosse opinar, como se ter defronte de nós alguém a quem sufragamos a vida em dois minutos deixasse de ser o essencial para se tornar o mero objecto da nossa pujança opinativa, como se ao outro, a quem radiografamos a vida em voz alta e corrida, a única coisa que importasse é o que nós achamos dela, o que nós achamos que ele deve achar dela.
É preciso viver muito tempo para saber dar bons conselhos, mas é sobretudo preciso saber vivê-lo atento para no fim sabermos que na maior parte das vezes não os deveremos tentar dar. Até lá há que treinar o silêncio. Preparar-nos no escutar – não porque o que se escute seja necessariamente importante mas porque saber-se escutado poderá ser importante para o outro. Sermos chamados à confidência poderá na maior parte das vezes ser só isso – se bem que isso seja imenso. O segredo da amizade pode estar muitas vezes em sabermos nesses momentos usar o silêncio, a nossa escuta, oferecê-la, estarmos próximos mas sem intrusões, fazer com que a nossa presença se manifeste como uma possibilidade que dispensamos ao outro e não como um intervalo das nossas palavras. Admitir que não somos solicitados para ser escutados mas apenas como alma que emprestamos à (encruzilhada) solidão de alguém é um exercício de modéstia que eu ainda estou longe de alcançar. Preciso viver mais. E bem. Por isso, até lá, estarei atento, e por muito que isso me custe prometo que, pelo menos desta vez, irei treinar o silêncio.
sapos e girinos
A um ainda lhe passo facilmente o braço pelo ombro e dele recebo espontaneamente um abraço pela cintura. São reciprocidades que lhe trazem conforto e a mim me são familiares desde que sou pai. É o universo táctil, um mundo simples onde eu ainda sou chamado para emoldurar as suas realidades. Estou ali e basto-me como seu aconchego.
Ao outro já não. Cresceu, subitamente ficou mais alto que eu e em gestos calados reclama um outro território já fora da minha sombra. Olho-o nos olhos, perscrutando-o, tentando sentir quem ele é agora, por vezes já nem encontrando as esquinas comuns de conversa. Aperto-o e ele, enquanto sorri embaraçado, olha para fora de nós e quase suspira sem conseguir explicar-me que a porta se abriu, que algures descobriu que já não são apenas os meus olhos que lhe mostram o mundo nem as minhas palavras que lhe dão razão. Aqui irei sobrar!
Os meus mimos e ralhetes nasceram com eles e com eles cresceram mas agora, subitamente, já não bastam. Incauto, não me treinei para trocar confidências e despertar companheirismos. Pensei que nos bastariam os laços da nossa condição familiar e que a nossa amizade era terreno de cultivo quase sempre mondado por mim sobre o qual eles se sentiriam aconchegados e felizes. E agora, pela primeira vez, sinto diante dele que tenho de aprender a escutá-lo como homem, onde ele e só ele – nunca pensei que viesse a sentir-me tão inseguro da minha condição de pai – irá encontrar o seu (e o meu) lugar.
Ele cresceu, já não o enlaço pelos ombros e atrapalho-me. Fui eu quem se tornou criança, desajeitado na minha nova condição de pai, procurando agora um lugar que ainda desconheço. Sei que tenho de me preparar para competir (também) como homem no seu novo mundo dos afectos, onde já não irei ser o centro e onde mais que impor terei de partilhar expectativas. Sinto-me frágil e confuso mas agrada-me admitir que um dia venha a compreender que foi hoje que descobri um novo amigo.
e há por aqui quem diga que as nortadas sopram de norte
Continuo sem ver uma razão consistente para querer voltar, a não ser talvez pelos inúmeros compromissos que me esperam de garras afiadas. E essa é uma razão sorridente para ainda não querer voltar.

Inventário a 2 de Setembro 2008: 1 piscina; 1 bola de rugby; 2 bolas de futebol; otites diversas e picadas de melga; 4 raquetes; 2 carros com respectivo condutor; 1 praia; Lagos; 1 veleiro; diversos jogos de tabuleiro; 1 guitarra eléctrica; número inestimável de ipod’s; 9 adolescentes e 2 gatos



61 comentários