A p e n a s + 1

juntando o pó

Publicado em Aproximações, Circunflexões por Zé, em 29 Setembro, 2008

 

Já tão pouco se me impele a caneta, já tão breves os impulsos de inventar palavras, já tão esparsas as memórias que arrasto para fora de mim, que os poucos laivos que casualmente ainda vou deixando por aí, cioso e desavergonhado para aqui os vou trazendo.

Correrão depois mais uns dias no calendário até que este espaço volte a parecer desocupado e durante uns tempos não me importarei que se o tome como uma parte de dentro de mim. Depois sei que voltarei, preocupado, alardeando fertilidade, deixando outro algo que possa parecer mais escrita de punho fácil. E hei-de voltar uma e outra vez depois ainda, como quem alimenta os peixes de um aquário herdado a que já não acha graça.

Por mais dificuldade que tenha em reconhecê-lo vou descortinando o que me continua a aprisionar aqui, o que me impede de lhe prestar um fim misericordioso. Há uma estranha alquimia que se vai formando depois de começarmos a escrever-nos perante os outros. Há uma parte de nós que inexoravelmente se enquista nas palavras em que nasce e não mais as abandonará. Passará a existir somente neste território que partilho com os outros – são eles que a credibilizam – e por isso, querer manter essa parte de nós, significa fertilizá-la com novas palavras, sempre e sempre. Parar de escrever torna-se assim, de certa forma, o anúncio da morte dessa parte de nós, a que construímos com aqueles que nos lêem. E por mais abstracta e volúvel que seja esta morte a verdade é que, deixando de acontecer diante de outros, haverá uma parte que deixará de existir dentro de mim.

E segue o tal texto-bóia . Mais uma ficha, mais uma volta!

 

Uma fileira de prédios, uma rua, escadas onde se emparelham crianças. Um estádio com relvado de cimento, tardes poeirentas, joelhos esfolados, heróis e ciganos que roubam bolas. O bairro a ficar mais comprido e novas escadas, mais gente. Corridas e calores tensos de fim de tarde. Já bandos de miúdos, já se escolhem amizades. Sobem risos e berros cortando o zumbido das horas que passam sem nada fazer. Motas, namoradas, façanhas e regressos gloriosos. Mortes. A vida a crescer, a fazer-se valer. Coisas que se contam em conversas preguiçosas pelo fim das noites entre cigarros, ganzas e grandes amizades. Desfiam-se licenciaturas, artes e outros jeitos que cada um inventa a fazer o seu futuro. Partem dali muitas estradas e os fins de tarde são agora mais distraídos. Já só por acaso as escadas os juntam, barbudos, até carecas, quase sempre de passagem. A cidade de fora cresce, engole-os, uns não voltam, nem tão-pouco se despedem – de quem afinal? outros mais tarde retornam sem avisar. A vida esticou-se e partiu-se em muitos pedaços diferentes e os miúdos, crescidos, ficaram distantes. Visitas de fins-de-semana, bicas, histórias e reencontros rápidos, quase só acenos.

Uma fileira de prédios, uma rua. Escadas. Ouvem-se risos. Alguém na pressa do passar espanta-se de ouvir ali crianças. Mas não. Naquelas escadas já não. Hoje em escada alguma. Haverá outros pousos, pensa. Haverá? Depois vira ao fundo no cruzamento e pára. Um semáforo! Nenhum outro carro pousou perto dele e ninguém lhe viu a interrogação, dentro de si, envelhecer.

12 Respostas

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  1. cat said, on 29 Setembro, 2008 at 3:22 pm

    Pericaso já tinha lido. Mas sabe sempre bem reler.
    Tá-te a dar o outono, portanto…olha, somos dois. Isto dos outonos com poluição de cidades é uma grande chatice.

  2. said, on 29 Setembro, 2008 at 3:45 pm

    Catarina, ainda assim as tuas “indecisões editoriais” são bem menos invernosas que as minhas. Além de que sempre vais juntando uns latexes e uns testes e mais umas toalhas e tal, e eu aqui, sorumbático, e então agora que se me esgotaram as fotos onde eu aparecia bem, pouco mais me sobra que este vício queixoso do sempre dizer como digo. Enfim, agora vou ali dar de comer aos peixes e já venho.

  3. alexandra said, on 30 Setembro, 2008 at 9:50 am

    não deixe de se nos escrever

  4. said, on 30 Setembro, 2008 at 10:58 am

    alexandra, prometo-me-lhe … desde que a caneta se me queira impelir

  5. catarina said, on 30 Setembro, 2008 at 2:36 pm

    aquela porra daquele link ali em cima é spam do bom, já o vi em não sei quantos blogs. Como diz “os melhores posts” a malta não apaga e leva tudo ao engano…

  6. said, on 30 Setembro, 2008 at 2:40 pm

    ai é, então pimba, espera aí que já levas!

  7. said, on 30 Setembro, 2008 at 2:43 pm

    já foi

  8. catarina said, on 30 Setembro, 2008 at 3:32 pm

    Boa! assim tens à mesma mais um link e tal do lado dos gajos, mas aqui a rapaziada não clica neles ora tomem lá!

  9. catarina said, on 30 Setembro, 2008 at 3:33 pm

    Távamos a falar de quê? Tricots?

  10. bill said, on 2 Outubro, 2008 at 1:24 am

    tic, tic, tic…

  11. bill said, on 2 Outubro, 2008 at 1:25 am

    tic.

  12. said, on 2 Outubro, 2008 at 1:49 pm

    Poinckkkk!

    oops, doeu? escorregou-me a matraca


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