nós, os criadores de avatares
Em tempos escrevinhei algo assim: As pessoas não escrevem como falam, nem falam como pensam, nem pensam como escrevem, apesar de em cada um destes planos expressarem um pouco de si próprias. Se conseguirem contudo cuidar destas três formas de ser talvez se possam sentir mais próximas do que verdadeiramente são. É por isso que é importante escrever. É por isso que quando o não podemos fazer nos sentimos mais vazios, como se desperdiçássemos cá dentro alguém mais, assim silenciado, ensimesmado no meio da enorme algazarra com que exaltam as outras duas partes de nós.
Hoje acrescento uma quarta dimensão, esta nascida neste neolimbo virtual: o culto dos avatares. O que nós parecemos pode ser apenas uma pequena imagem, não importa de quando, nem de como, nem do que sentíamos quando fomos fotografados, nem tão pouco de quem somos hoje, importa apenas que nos retrate da forma mais generosa possível. E isso torna-se muito importante porque esta percepção dos avatares é a mais carnosa das quatro, aquela que molda ímpetos e fabrica aproximações. Com a sua natureza frívola e esfuziante controla mais do nosso ego que as restantes três dimensões de nós, orgulhosamente espirituais, inaptas, envergonhadas perante tanto alvoroço de vaidades com que nos vamos desfraldando diante dos outros.
Acho que conheces a minha imagem de perfil. Será que estou a precisar que alguém me ensine alguma coisinha acerca de avatares e, já agora, do ego em contramão nos dias em que vai tudo à frente se não tiver uma caneca de café? É que um boneco verde, com pantufas roxas e uma joaninha pendurada no pêlo deve ser muito pouco convidativo :D
verde Hipatia? aqui és cinzenta
e eu talvez não lesse isto no sentido tão figurado/fotografado. pode ser um jpeg, uma película de vinilo, um boneco patusco, o que for, desde que tenha contornos moldados.
Julga por ti:
http://www.blogger.com/profile/07362401639774427986
(não tenho – pelo menos como Hipatia – avatar no wordpress)
«[...] acrescento uma quarta dimensão, esta nascida neste neolimbo virtual: o culto dos avatares. O que nós parecemos pode ser apenas uma pequena imagem [...] que nos retrate da forma mais generosa possível. E isso torna-se muito importante porque esta dimensão dos avatares é a mais carnosa das quatro, aquela que molda ímpetos e fabrica aproximações».
Talvez porque o mensageiro conta na credibilidade que atribuímos à mensagem?!
Confesso que um dos factores que inicialmente me impunha reticências a aderir ao FB era conhecer os rostos por trás dos textos… quer queiramos quer não somos seres instintivamente empáticos, e isso funciona tantos nas palavras como na imagem :)
PS: Regresso seu à bloga em grande inspiração. Grandes textos!
o mensageiro ou as roupas que ele veste?
PS: nunca parti “talvezteescreva”, como comprova o calendário de postagens aqui ao lado. a intermitência não chega a ser um estado de ausência e por isso nem tem retorno. obrigado pelo alento no elogio.
Ah marinheiro! Ainda bem que voltaste das caras (mesmo que haja excepções) com os avatares, o melhor painel red de nós próprios, da personagem «mais frívola» (como dizes) que de nós damos. Talvez daquela que raras vezes levamos à cena da vida e por isso é a melhor protecção de nós próprios num mundo de pixels.
é interessante notar em ti esse eco filosófico, que considero de um moralismo reaccionário, que desvaloriza o corpo (sua imagem) face à mente (alma) – essa que se expressa, fala, escreve, pensa, de modo menos frívolo.
Meu caro, os avatares não são as imagens, são sim os pensamentos, as falas, as escritas. O resto também o será, talvez não.
hummm, temos de aprofundar essa questão da imagética do nosso alter-ego amigo JPT. A que horas pensas estar no facebook?
(reaccionário eu? estás(-me) a ficar cá um trotskista!)
então mas agora as discussões bloguísticas sao no facebook? já me pareces aquela bloguista magellan que vai para lá gabar’se dos comentos que tem no mural dela