a vida é dura, ui ui
Há coisas estranhas:
Fui ao Algarve no fim-de-semana para cumprir com a altruista tarefa de montar um toldo debaixo de uma canícula quase carnívora 
e voltei que nem me mexo

… à conta das ‘carreirinhas’ sobre as ondas de um fabuloso levante!
quem vê caras …
Seria curioso se as feições se alterassem conforme os estados de espírito que nos habitassem – e não, não falo apenas das expressões, mas de uma transmutação completa de todos os seus elementos, desde o desenho dos olhos à curva do queixo – estes a tomarem as tonalidades da nossa disposição e afigurando os caprichos e as alterâncias da nossa própria atitude. E isso assim tornar-se indisfarçável, e incontrolável.
A sair de manhã por exemplo e ali a cruzar-me com alguém na rua – uma hesitação, e depois em jeito de cumprimento “Ah és tu, não te estava a reconhecer assim, tão irritado!”. E logo eu a confirmar identificação, a evitar confusões e a lançar escusas também: “Mas já estou a mudar, repara que o nariz já desarrebitou. Hoje de manhã estava intratável. E tenho para mim que a linha dos olhos também já não está tão carrancuda”.
E tantas as disposições, tantos os estados de espírito, que no
emprego andaríamos todos de placa ao peito, para desembaraçar aqueles que ainda não identificassem todas as variantes dos mais recentes colegas. “Como está Sr. Dr, não tinha a certeza de que era o senhor e bem sabe …” depois estudando melhor os esgares, as rugas abespinhadas, o arrebitamento das orelhas no outro “… talvez seja melhor voltar mais tarde?”. Tantos mal entendidos que assim se resolveriam.
E depois o chegar a casa, antes da transfiguração, antes do despir o trabalho e o trânsito, sem tempo ainda para a recuperação das feições, e logo um reparo carinhoso: “ Oh Zé, tu não podes andar sempre a aborrecer-te, qualquer dia arriscas-te a ficar assim, com esse nariz distorcido e a nunca mais o pores direito. Descontrai-te, vá lá”. E já mais calmo, as ventas recompondo-se, o serão a começar a fazer-se.
E ao jantar, numa tasca familiar lá do bairro: “O Sr. hoje anda com uma testa de elefante, isso foi alguma contrariedade lá no trabalho não?” – e o queixo a crescer-me de irritação, com a impertinência do homem e ele logo o notando e recatando-se “Desculpe …”
Depois já o dia seguinte. Manhã de fim-de-semana, todos alegres a acordarmos belos. Uns lábios repousados, um olhar recuperado da saudade, as rugas esbatidas na tranquilidade e já alguém a perguntar “Então, ideias para o que faremos hoje?”. E logo o Diogo, transfigurando-se na sua cara linda “Oh Pai, podemos ir ao Oceanário?”. E eu a pensar que nem valia a pena, que nada haveria melhor do que ficar por ali com aquela gente linda, a descansar o nariz, a boca, os olhos e até talvez o espírito, para a semana que se avizinharia.
das carcaças com manteiga e açucar
adaptado de um texto originalmente publicado aqui
Hora de almoço, depois das aulas. O pessoal empanturra-se com o que houver e no fim ainda emborca dois papo-secos para arrematar a fome. De seguida pira-se, bate com a porta da rua e lança-se em passo acelerado para a pressa do resto do dia. Mas em chegados tudo vira mais calmo, seja lá onde isso for, que nalgum sítio da rua certamente, um dos sítios do costume, onde esteja a malta. Depois pingamos pelas casas dos refractários: soam três toques de campainha ou sibila um código de assobio. Nem se aguarda resposta que essa não espera, ou melhor, diz que lá estamos à espera, no sítio do costume. Entretanto passamos por casa e entramos pela porta da cozinha na parte detrás do quintal, sempre aberta e guardamos duas maçãs no bolso que daí a nada a fome esperta de novo e depois já só no lanche, e voltamos então a aquietar-nos já no mesmo sítio do costume. Aos poucos vão chegando, todos, ruminando os restos do almoço, com cumprimentos ligeiros que nem se nota terem antes havido despedidas. E é tudo tão seguido, tudo acontecendo tão naturalmente após o último momento em que ali mesmo estiveram que nem surge ímpeto de iniciar conversa. Ela vai brotando serenamente, ao ritmo de quem vem chegando como se nunca tivesse partido e é assim até à hora de jantar, sempre assim. Um destes dias é possível que alguém diga algo de verdadeiramente novo, mas é certo que poucos lhe darão atenção, que as palavras aqui até nem são o mais importante. Que importante é estar por ali, por entre todos, até que algo se passe ou o fechar do dia – um interregno a que ninguém liga – os leve de volta para casa. Não há nada que deva ser dito ou feito, que amanhã, sabe-se, mesmo que ninguém o diga ou escute, amanhã haverá mais. E assim se vai seguindo, desfrutando das amizades e dos ócios, sem ânsias, como se todo o tempo do mundo se deixasse ali sentar connosco nas escadas, entretendo-se com um pedaço de pau rolando por entre os dedos distraídos, apenas ligando o que foi com o que há-de vir …
Destes dias de cá de longe, de onde hoje escrevemos, em que o tempo já não escorre assim, tudo isso parece agora um enorme esbanjamento, essa moleza cultivada de ir ficando por ali. Ou talvez não, talvez nem achemos nada, que não há tempo para isso. Talvez o pensemos para nós, assim mais rápido, ou talvez no limite o escrevamos num blog onde fingimos distender a nossa vida para além do que ela é. Quem sabe até se no fim não o enviaremos depois para algum endereço electrónico de um desses amigos que não se chegou absolutamente a perder, como se usando apressadamente estes endereços electrónicos pudéssemos fingir a cumplicidade das palmadas de mãos pegajosas de suores e manteiga escorrida das sandes dessas tardes. Que agora há menos tempo e sobram coisas por fazer, e há tecnologia por toda a parte e gente que vamos vendo às golfadas … mas falta carne.
da cronometria dos dias
Por cada hora de trabalho que não resolvo costumo escrever uma palavra. Por vezes saem muitas. São feitos de frases grandes os dias desnecessários.
Por cada tropeção que dou, desde que me levanto, acrescento-lhes vírgulas. São proposições interrompidas, as destes dias desajeitados.
E
por cada
coisa que
hoje
não fiz
e tanto
queria
fazer
introduzo
novo parágrafo.
São
textos
esguios
os dias
que nada
são.
Mas hoje é sexta, e quase tempo de ir para casa, apagá-los, linha por linha, dermatologicamente, como quem renova cada ruga do cansaço.





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