A p e n a s + 1

a propósito da morte de robert enke

Posted in Anotações, Irritações, Replicações by Zé on 12 Novembro, 2009

O que choca no suicídio não é apenas pressentir esse processo voraz, habitando o interior de alguém, que lenta e silenciosamente o vai devorando ao abrigo dos nossos olhares enquanto prosseguimos nas nossas vidas acalentadas. O que mais choca no suicídio também não é o abrupto da notícia, a irritação pela renúncia ou a censura da minha consciência perante a desistência. Não, o que mais me choca no suicídio é nele estar contida a hipótese de, mesmo que de forma distante, mesmo que insignificante, ter porventura aí faltado um gesto meu, mesmo que este em nada intersectasse o que o monstro já estava a matar.

Tenho pessoalmente muita dificuldade em processar esse trajecto íngreme que leva ao próprio homicídio, mas quero admitir que as pessoas se suicidam perante o mundo, e porque deixam de atribuir qualquer valor a si mesmos, e porque desistem dos outros e do que eles podem trazer às suas vidas, de todos os outros, de cada um dos outros, onde cada um de nós, por mais remoto que se pretenda admitir, também é parte inclusa, desse mundo apartado e indiferente a que eles renunciaram.

O que verdadeiramente me inquieta nesses suicídios distantes que me chegam pelas parangonas dos jornais é sobretudo saber-me parte do móbil e, mesmo que com uma atribuição minúscula, parte do seu contexto homicida.

3 Respostas

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  1. candida said, on 12 Novembro, 2009 at 4:52 pm

    não penso assim. um gesto alheio poderá salvar, mas olha k há vidas muito muito muito mas muito- muito dificeis e, com ou sem esses gestos, sabem k têm absoluta razao e por isso, andar pra frente mesmo k seja para o nada. mas a vida é assim, nao é, meninos mimados?

  2. said, on 12 Novembro, 2009 at 4:55 pm

    Candida, nem sabe o alívio K me tira de cima com tão douto esclarecimento.

  3. M. said, on 13 Novembro, 2009 at 2:17 am

    É um processo lento, corrosivo, interno, individualista, secreto e solitário que afunda até ao ponto em que doi o respirar e em que viver se torna insuportavel.
    Não, Zé, não havia nada que pudesses fazer.


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