
Gosto de criar, de o fazer com as mãos e sonho um dia acabar as minhas forças numa carpintaria. Posso não ter muito jeito com algumas coisas, mas dêm-me um naco de madeira e algumas ferramentas e eu apresto-me a mostrar a minha franqueza. Sempre me senti mais sereno e seguro com o concreto. O mais perto que encontrei disso na formação académica fez de mim Engenheiro Mecânico. Depois fui me deixando seguir - em contra-mão com este mundo profissional do frenesim da permanente mobilidade - aclimatado a uma organização onde esse mesmo quadro de criatividade, mutabilidade e concretividade, que ainda hoje me seduz, me dissuadiu sempre de procurar outras alternativas profissionais.
Mas o traço da vida é uma sinusóide imperfeita, cujas assimptotas nem sempre são susceptíveis de serem antecipadas por nós. Esmorece-se, desanima-se, e aos poucos vamo(nos) afundando na apatia de uma vida qualquer, e entrega-se à rotina aquilo que são as qualidades que sempre procurámos e exigimos de nós. E damos por nós longe do que queríamos ser, sem um resmungo sequer.
Só tomamos consciência do quão longe andávamos da nossa natureza quando, por sorte, o destino nos traz de volta ao espaço onde sempre nos sentimos bem e então, aí, percebemos de novo a ventura que temos pela frente. E de repente tudo muda. Percebemos o quão importante somos, o quão realizador pode ser viver e prosseguir em todas as facetas que escolhemos para a nossa vida, tendo por mote a convicção da felicidade.
Vem isto a propósito das terças partes que hoje preenchem a minha vida:
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Vejo-me de novo a gerar projectos, a criar oportunidades, a entregar resultados concretos para fortalecer o amplexo profissional que partilho na minha empresa. Este clima de criatividade é agora também salpicado por incessantes viagens aos mais recônditos e imprevisíveis locais da Europa, e sabe bem quem gira por essas lides que não haverá melhor contexto para a auto-interrogação que de vez a vez encontrarmo-nos longe da nossa vida comum, do que nos é próximo, do nosso bunker de conforto.
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Nos tempos livres que me sobram mergulho agora num idoso sótão que durante anos a fio deixei ao abandono. Olho para aquele madeirame todo e sinto as minhas mãos encavalitarem-se de vontade. Aquele que irá ser o espaço dos meus filhos é antes disso, e agora, a oportunidade que tenho para inventariar, projectar, levantar, remendar, martelar, serrar, repintar, afagar, refazer, criar. Só eu sei o deleite que é poder voltar a investir neste nosso espaço, como se nisso de cuidar do nosso tecto houvesse algo de primordial, de essencial, cujo investimento me realiza mais do que qualquer outra noção de sobrevivência.
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E depois, depois, porque ainda há tempo que sobra, porque esse é um tempo que nunca poderá ser ocupado com mais nada que não aquilo que o empenha, tenho andado ocupado em redescobrir o amor. O amor é como o madeirame do meu sótão. Vai ficando velho, cansado e por vezes abandonado, sem que nós tenhamos dado conta disso. Mas está lá, continua lá, agarrando o telhado. Volto-me para ele com a mesma vontade e prazer com que subo os lances do sótão. Todos os dias me invisto agora nele e todos os dias descubro esta felicidade indizível de o ver rejuvenescido.
Que dizer, que falar mais, quando este momento da minha vida sacia por inteiro o que é mais perene na minha natureza e me faz sentir tão completo perante a minha intelectualidade, a minha ânsia do concreto e a minha sentimentalidade. Sou hoje o homem mais importante do mundo, a minha profissão também o é, e o meu sótão, e aqueles que amo.
(Mas, e o Euro, ouço algures perguntar com ar sisudo e preocupado. Pouco me importa o Euro, ou que chova lá fora.)