(en) fados

Duas notícias:

  • Esta na rádio, no noticiário estremunhado das 8 da manhã: Portugal é o 9º país mais seguro do mundo, e pronto, está dito, que interessa isso e tal.
  • Esta também, e depois replicada no das 9h, e certamente nos jornais que ainda não li, e se calhar também a passar nos rodapés dos noticiários televisivos de logo à noite: Em Portugal as empresas gastam 3 vezes mais do seu tempo para pagar impostos que no resto da Europa, e quem sabe não dará mesmo origem a uma mesa de comentadores no horário nobre.

Somos assim, nós os tugas, sempre a valorizar-nos, sempre a vermos o lado bom da vida. Confesso que começo a ficar fartinho desta depressão colectiva, (antes a minha).

Deixo aqui um poema de Ruy Belo para nos ajudar a cultivar a verdadeira depressão atitude lusa:

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transistor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fonte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

[Ruy Belo, Boca Bilingue]

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One response to “(en) fados

  • bill

    O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir.

    do abichanado Pessoa

    Gostar

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