Monthly Archives: Julho 2007

o gato preto rafeiro zarolho com sorte

Eram uma ninhada de cinco gatitos, todos irmãos, vadios. Na escala dos desejos eram na verdade apenas quatro, e mais aquele escuro com um ‘problema no olho’. Quando olho para ele agora acho que aquele gato preto rafeiro zarolho teve muita sorte por ter sido guardado por uma criança que o escolheu justamente porque, (assim sendo), seria o único que não seria escolhido. Quando olho para ele, cheio de cicatrizes da pancada que levou, com o balancear nervoso da cabeça, com aquele pêlo apenas escuro que nem preto é, e com aquele olho transparente desfeiando-o, a ronronar e a raspar-se nas nossas pernas, sinto-lhe a gratidão. Quando olho para ele, para o gato, concluo que também eu tive muita sorte com o dono dele – nem todos os pais se podem orgulhar de poderem aprender tanto com as escolhas dos filhos. Quando olho para ele, para o meu filho, sei que ele poderá nem sempre vir a ter tudo o que quiser, mas sei que há-de querer sempre tudo o que tiver.

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hoje deu-me para isto. enfim, já o gato preto cresceu e partiu pelos telhados afora, um dia, e veio outro, depois, listado. a verdade é que nada disto se passou ontem, e nem sei porque me deu para isto hoje. E tenho ideia de que no antigo blog já me tinha ufanado neste tema. mas hoje deu-me para isto …

… e eles que nunca mais voltam do Algarve caramba!


dos vinhos e do pantagruelismo

Depois de tanto calcorrear, finalmente, encontro um post importante.

E já que destaco o post, aproveito para frisar o mérito do blogue onde este se ancora, um blogue que por coincidência se aprisionou destas lides quase ao mesmo tempo que este … , o absolutamente infatigável, um sítio que com inquestionável rigor e zelo cumpre a missão em que o seu autor se aventurou há anos, ininterruptamente, o mais abnegado, e provavelmente, o mais regular e menos errático de todos os blogues que fui conhecendo ao longo de quase 4 anos de leitura da lusosfera: o pantagruelista Culinária daqui e d’ali !


natureza quase morta

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(c)copyright Eufigénio Lagoa, 2005
   produzido aqui

sei …

E reconheço que paira por aqui um certo impulso depressivo, mas assevero que este tom lúgubre provém apenas do pulsar da escrita e nada tem a ver comigo. Causará algum desconforto ao estimado leitor? Estamos em plena silly season, (se com algum critério souberem desviar-se das bojardas interblogues e das tiradas de pseudojornalismo político), não vos será difícil encontrar as suaves leituras que por aí decoram este tão ameno período estival.


tic-tac tic-tac

Hoje acordei com um bafiento hálito de morte. Um fedor rançoso e acre a lembrar-me ser coisa perecível. Não sei de onde me veio, se da réstia de um sonho, se de alguma prenunciadora dormência no braço esquerdo, ou se só do engasgo acidental com que acordei. Mas sei que a vi sair de mim, ainda agora. Vá lá, não será então hoje o meu óbito. Mas isso não tira de mim esta consciência da minha condição efémera. Afinal, e desiludo-me, não encontro nada de cósmico em mim, e o meu falecimento não será então coisa abstracta, e aquilo que me rodeia, para meu espanto, provavelmente continuará a permanecer para além de mim.

Pronto e de dentes lavados, ensaio cheirar o próprio sopro que expiro: aparentemente já terei deixado a minha condição moribunda. Agora parto. Mergulho voraz no resto do dia e prevejo que vá andar por ele mais depressa do que costumo.

Será isto que molda a alma apressada dos homens, essa coisa de viver ansioso pelo dia de amanhã, como se necessitássemos confirmar que o nosso mundo precisa incontornavelmente de nós?


e contudo, as férias, nem por isso se acercam

Estico a pouca vontade que ainda me resta, mas nada daí se mostra alterado. Sou cada vez mais um corpo apagado de movimentos, inerte e disso prisioneiro da vergonha. E vou-o escondendo por entre os interstícios do dia, ansiando que a sua personalidade vadia retorne antes que alguém o note assim, oco e tíbio. Essa é a única inquietude que em mim bole. Entretanto, assim vazado e rastejando, lá segue o meu corpo de encontro a mais um fim do dia. Aí cairá então, pachorrento, o numerador, fazendo um baque de velho dia, de uma contagem decrescente que tamanha languidez já não alcança.

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"altars of ego" 2001, Marjorie Graterel

o turno do alvorecer, entre mallorca e ibiza

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Esta travessia foi diferente das outras. Dividimo-nos entre adultos e crianças e pela primeira vez tive como companheiros de turno os meus filhos. Interrompidos do sono por vontade própria ali se aguentaram no poço durante horas a fio, embalados comigo pelo planar calado e escuro do casco.  De madrugada, enramelados, foram eles que içaram o sol nas mãos enquanto deixávamos pela ré o silêncio cavo da noite.

Observo-os. Quase tão súbitos como a alvorada, o Francisco fez-se homem, e o Diogo bom marinheiro.


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