tic-tac tic-tac

Hoje acordei com um bafiento hálito de morte. Um fedor rançoso e acre a lembrar-me ser coisa perecível. Não sei de onde me veio, se da réstia de um sonho, se de alguma prenunciadora dormência no braço esquerdo, ou se só do engasgo acidental com que acordei. Mas sei que a vi sair de mim, ainda agora. Vá lá, não será então hoje o meu óbito. Mas isso não tira de mim esta consciência da minha condição efémera. Afinal, e desiludo-me, não encontro nada de cósmico em mim, e o meu falecimento não será então coisa abstracta, e aquilo que me rodeia, para meu espanto, provavelmente continuará a permanecer para além de mim.

Pronto e de dentes lavados, ensaio cheirar o próprio sopro que expiro: aparentemente já terei deixado a minha condição moribunda. Agora parto. Mergulho voraz no resto do dia e prevejo que vá andar por ele mais depressa do que costumo.

Será isto que molda a alma apressada dos homens, essa coisa de viver ansioso pelo dia de amanhã, como se necessitássemos confirmar que o nosso mundo precisa incontornavelmente de nós?

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