Monthly Archives: Setembro 2007

o post mais fútil que aqui se lavrou

Estou muito atrapalhado. Vou comprar roupa e levo comigo 3 incógnitas: que sapatos, que camisa, que calças. Ou melhor, preciso que alguém me esclareça o que é suposto vestir-se num casamento com traje ‘nada formal’. Até agora costumo ir de fato de macaco, perdão, de fato e gravata. Mas este, num restaurante de praia com traje nada formal …

… vou mas é fazer um telefonema de ‘gaija’ para um dos meus cunhados: “ o meu amigo pensa ir trajado de gravata?”, perguntarei eu. E depois desligarei de súbito, antes que ele se atreva a perguntar a cor do fato que levo. Que há limites para a dignidade de um homem !


aqui …

… apenas isso, a possibilidade de amanhã me revisitar, e se o entender, poder achar-me um estranho. E nem me constrange ver-me assim exposto, a escrita a imitar a minha existência, a clamar inconfidências. Há algo de delinquente nisto, de promíscuo, de impedido, que me faz sentir diferente. Como se eu fosse marginal a tudo isso, e a mim mesmo.

O desfrute deste blog, já o referi várias vezes, não está tanto no escrevê-lo, mas sim no seu revisitar. Ler-me é muitas vezes experimentar um processo ilusionista através do qual consigo estabelecer um diálogo comigo mesmo, em diferido, o qual, de alguma forma, a distância torna mais fértil. Muitas coisas de mim tenho compreendido melhor assim – dessas coisas que não são precisas no dia-a-dia e sobre as quais podemos deixar passar anos (quiçá uma vida inteira) sem as destaparmos. Será essa a razão porque a partir de agora recorrerei a textos antigos, que escrevinhei em outros lugares, e que para aqui trarei. Alguns deles serão simplesmente copiados, transmutados, mas outros sei que irei tecla por tecla reescrever cada uma das suas letras. Porquê?, bom, para isso teria de começar por reconhecer que não fui absolutamente sincero (nunca o terei de ser) no texto que aí em cima começo por reproduzir. Na verdade, quando mergulho em alguns textos que escrevi, não me sinto nada marginal a eles, e nem tão pouco os consigo ver por fora. Há textos, eventualmente os mais carnosos, que são um inexplicável e por vezes espinhoso processo de me reencarnar das memórias e das pessoas que ainda tenho dentro de mim. Não se trata de um luto, porque essas pessoas ainda vivem em mim, e muitas delas à minha volta, no nosso mundo. Não sei discernir essa fronteira, mas consigo compreender que também eu faço parte dessas pessoas que arrisco narrar. Sei apenas que a alguns textos não me os basta ler – preciso pari-los de novo – para deles tirar o que lá guardei. É no fluir das palavras que agitamos que acabam por reacontecer as coisas que contamos, e são elas que trazem uma cara ou um gesto que tínhamos já distraidamente afogado nas saudades, ou um breve trecho de memória que nos leva numa súbita viagem à infância onde aos poucos vamos recuperando o vozeiral de sons familiares em redor da mesa de jantar. Seja o que for que para aqui trouxer, e seja como o trouxer, não hesitarei em os refazer sempre que sentir apelo disso, pois só assim neles encarnarei. A outros esconderei algumas pontas. Gosto também de sentir que neles deixo por escrever aquilo que nunca quererei e conseguirei contar. Faz-me sentir infinito.

[ Para o que então (re)escrever passarei a usar esta cor, sem mais qualquer outra referência. ]


de encontro ao aconchego

A noite já se fechou para os miúdos e eu deixo-me ir ficando pelo quarto deles, um pouco distante de onde dormem, onde matraqueio algo no computador, … no que subitamente me interrompo: porque será que o Diogo dorme ao contrário? Claro que sei que as camas não têm o “contrário”, que são simétricas e têm dois topos, mas todos nós escolhemos de forma quase unânime o lado mais abrigado para aí deitar a cabeça. Só que estranhamente o Diogo, faz algum tempo já, decidiu inverter a sua posição na cama, orientando-se agora para o lado que não é aconchegado pela parede, assim mais destapado e também mais exposto ao ângulo da janela. Paro, agora absolutamente, não consigo já deixar de me interromper com isto. Pequenos detalhes como este, se não forem logo domesticados com algum rigor transformam-se numa espiral de pensamentos que rapidamente nos leva a extrapolar, e é por aí que acabo a interrogar-me se aquela postura dele na cama não poderá revelar algo menos comum na sua personalidade, uma qualquer fobia para a qual continuo sem encontrar explicação. Entretanto calha passar por ali a mãe dele, com quem partilho esta minha interrogação. Devolve-me quase espontaneamente, como se sobre isso há muito já se tivesse interrogado e há muito já tivesse decifrado a resposta:

– É porque assim te sente mais próximo, ao adormecer, quando por aqui te deixas ficar diante do computador.

Algo céptico primeiro, vou depois compreendendo melhor o que ela me vai trazendo em voz baixa: a presença, o ruído das teclas, o arrastar da cadeira, e apela às minhas memórias remotas, se não me sentia confortável com esses ruídos ténues da presença do meu pai, enquanto me deixava ir de encontro ao torpor do sono. Aquiesço. Assim ajudado percebo tudo melhor e já não me parece tão estranho que ele durma com a cabeça do lado desprotegido, que afinal o não é.

Debruço-me de novo sobre o computador. Agora ouço-lhe mais distintamente a respiração, funda e pausada. E sigo noite dentro, ali ao lado, também eu mais confortado por saber que nesta casa há mais radares que não o meu, este que tantas vezes se desliga.


foi 

  muito 

bonito !!! 


“736 mil *

espectadores que, (…) assistiram ao Portugal-Escócia, do mundial de râguebi, que a RTP considerou não ser de “interesse público”. De acordo com aquela estação privada (SportTV), esta audiência assemelha-se à do jogo de futebol Sporting-Bayern, da liga dos campeões do ano passado. ”

in Visão, nº 759

 

*  depois de hoje já não haverão mais jogos. sobrará o júbilo aqui ou ali, em vozes amortecidas (não ampliadas pelas TV’s) sobre a nossa participação, mas nada mais. eu próprio soçobrarei nesta irritação e deixarei esquecer o assunto. dizia o Lampedusa, mais ou menos, que “é preciso que algo aconteça para que tudo permaneça na mesma”. ele, latino como nós.


em estado pré-eufórico razoavelmente controlado

A notícia que eu tanto gostaria de ler hoje

 

 E a que não quereria ler amanhã

  

Advertência editorial: Os excertos acima publicados são obviamente forjados, e fruto desta entusiasmante ferramenta. Qualquer semelhança que a realidade possa vir a ter com estes meus pasmos e alucinações será mera coincidência e exclusiva culpa dela.

Já agora, mas optando por afastar estes meus laivos de emocionalidade, e sobre a homérica missão que hoje espera a nossa selecção às 20h, convido-vos a ler artigo do jornalista João Fragoso Mendes, publicado aqui.


fatos trocados

Confundimos tantas vezes os nossos territórios, onde julgamos que os abrigamos, com os espaços que eles próprios terão de encontrar e colonizar, e confundimos tantas vezes os sítios desconhecidos onde outrora inventámos os nossos medos e experimentámos o insucesso com o imponderável dos seus próprios destinos, que em vez de os deixarmos autónomos ir traçando a sua vida, acabamos por querer fazer deles uma segunda versão, mais protegida, sem erros, mais inábil e vazada por isso, de nós mesmos. Compreendemos isso melhor quando os vemos ultrapassar-nos em altura e subitamente constatamos que os nossos braços já não os conseguem enlear com a mesma facilidade. É aí que percebemos que esse espaço que criámos à nossa volta e que desejamos que eles habitem, sempre, poderá não ser suficiente, (que eles agora ousam ir mais longe, e vão mais rápido que nós), e só aí nos apercebemos finalmente que ao ser tecido com as nossas fronteiras, se tornou pequeno o mundo com que os pretendemos proteger.

E ainda assim, disso já conscientes, na maior parte das vezes continuamos sem ser capazes de olhar para eles sem aquele orgulho mesquinho que anseia vê-los como uma espécie de versão aumentada e melhorada de nós. Pouco nos importa como lá chegam, importa que cheguem (como se fosse possível simplesmente ‘chegar’), e que cheguem bem, sem arranhões (como se estes não fizessem parte da narrativa da nossa pele). E assim, fazendo-nos destinos dos nossos filhos lá teimamos em ignorar quão importante é eles poderem ir olhando para trás e verem o seu próprio trilho, e admirarem os sítios que traçaram e poderem disso, (aqui eles, não nós, importa insistir: eles, não nós, eles, sem nós, eles), orgulharem-se.

Um filho não pode ser nunca uma espécie de segunda oportunidade perante as coisas que não fizemos ou fizemos mal. Disso seremos um dia convencidos por força das circunstâncias que eles próprios nos trouxerem. Mas até lá, e porque todos ‘somos’ um pouco de pais, e todos cometemos os mesmos erros, cúmplices e beneplácitos continuaremos a admirar esse orgulho sovina com que alguns pais, todos afinal, ostentam os filhos como essa espécie de personagem remendada do que eles próprios acabaram por nunca ser. E assim, vorazes, trazendo-os por baixo das nossas asas, impomos aos nossos filhos aquilo que ‘fomos’ e que gostaríamos de ‘ter sido’, (é a isso muitas vezes que ousamos chamar ‘educação’; quase nunca o é no sentido estrito da palavra, é quase sempre medo), sem sermos capazes de os trazer simplesmente até junto do que é espontâneo, do que hoje ‘somos’.

E teimamos em não perceber que para eles estará traçado um outro destino. E ao mesmo tempo desistimos de ainda o alcançar connosco, esse outro destino que por ‘descoragem’ julgamos já não ser o nosso, e que por tacanhez queremos que seja o dos nossos filhos. E teimamos, orgulhosos, ostentando até, (aclamados pela tutela desta sociedade que cada vez os liberta mais tarde para poderem ser quem quiserem), em fazer deles essa versão retocada do que não fomos, nem conseguimos já ser.

A generosidade de um pai não está em trazê-los para próximo de nós mas em saber dar-lhes distância.


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