fotos em sépia de textos da quase infância

Ando a rever memórias dos olivais, da minha infância. Descubro-as também aqui. Há etapas que são incontornáveis no nosso crescimento. Esta que se segue, pela forma como a conto e agora, com distância, a leio, parece-me ser uma delas.   

“Memórias de um período revolucionário (1978)

Não que eu fosse do outro lado, que nem podia com esses outros de samarras e sapatinho italiano. Basicamente era do contra, embora naquela altura quem fosse do contra fosse obrigatoriamente dos outros. Mas eu nunca fui, nunca fui de nenhum, o que era uma forma de ser um bocadinho de todos. E por ali andava nas meias águas liberais, disponível assim para ganhar uns cobres a colar cartazes de diferentes cores, que nisso também havia ideologia, pelo menos para um miúdo de 15 anos. Mas daqueles não gostava, achava-os bárbaros.

Desde o tempo do Pinheiro de Azevedo a gritar “O Povo é sereno. O povo é sereno”. E a turba louca em direcção à rua augusta, pouco importada com o que ele dizia, com o que ele dissera, com as ovações que lhe dedicara antes, e depois a voltar em cavalgada, a fugir dos gases lacrimogéneos que a barravam lá do lado norte. “O Povo é sereno, o Povo é sereno”, e naquela catadupa a caírem, espezinhados, perdidos uns dos outros, agora todos em trote na direcção do rio, e ali sereno só o meu pai, abrigando-nos aos dois junto da estátua do D.José, que “isto já passa, fiquem aqui perto de mim”. E a multidão a trocar o passo, que dos lados do rio são agora os disparos da G3 da COPCON, e eles em magote a retrocederem, e o baque inevitável dos que ainda iam com os que já voltavam, e o Pinheiro de Azevedo a continuar “O Povo é sereno, o povo é sereno”. Foi por aí que deixei de gostar deles.

E depois foi lá por Chelas também, lá onde se construía um bairro novo e para onde nós partíamos a passar a tarde, a ver a expropriações das casas, e todos os dias um novo episódio, quase sempre o mesmo. O “fascista, fascista”, e este a fugir, esgazeado, esfarrapado já, no ai acudam-me que sou pai de família, e a tropeçar, e a cabeça a sangrar já, a cara distorcida do pânico. E o povo a guerrear já pelo condomínio a ocupar, e o militante da LCI(?), a tentar arbitrar, que “camaradas há-de chegar para todos, não sejamos como eles”, e depois a recuar hesitante, com a reacção daquela gente, que tão logo se tentava o tirar da habitação que ainda agora tinha-lhes sido devida da acção do povo. E de vez a vez a tropa, chaimites, uns tiros de G3 para o ar, rapazes de bochechas coradas, aquietados, apenas a fazerem-se notar, a subir o queixo para aquela gente toda, não pelas razões que travavam, mas apenas pelo fulgor da juventude. E as mocitas a acercarem-se deles, se podiam subir, suba menina, suba, e então também vai ficar a viver por aqui. E a multidão a virar-se de súbito para os lados do rio que parece que por ali anda outro, “fascistas, fascistas”, a construírem andares com o dinheiro do povo, e já mais famílias a perguntarem onde, agora sem o militante da LCI que afinal também não era flor que se cheirasse. E eu não gostava daquela mole de razões, bruta, excitada, ladroeira.

Era contra, mas não era dos outros. O Xico era, eu era apenas contra. E a pintura do Lenine, enorme, ali todos os dias a ocupar a fachada do prédio, a rir para nós, e hoje, assim noite escura, a lata de tinta que até havia em casa dele. E agora a fugir pela azinhaga, e aquele gajo enorme, mas nós, dois, cada um para o seu lado. Foi o Xico, que só podia apanhar um de nós. E depois aquela gente toda enrubescida, a gritarem-lhe puto de um cabrão, fascista de merda, ficas aí até isso sair tudo. E ele lá em cima das escadas a limpar aquilo com a própria camisa, o tronco nu, vergado de vergonha, e aquela gente toda enraivecida, e um deles ao lado de mim a perguntar inflamado “e tu puto, porque é que estás a chorar, é teu amigo não?” e eu a olhar para ele, à espera dele, e os dois a voltar, cabisbaixos, já sem Lenine, já sem revolução, a dar tempo ao tempo, nós a crescermos e eles a envelhecerem, a ficarem por lá, escondidos naquelas memórias.”

E perguntam-me do lado de cá pelas ‘fotos em sépia’. Pois aqui deixo uma, e sobre o tema, já que retrata um grande revolucionário da minha ascendência: o terceiro da esquerda, meu avô paterno, muito antes de sequer supor que um dia teria um pequeno-burguês na família.

das-origens.jpg

[e não. que eu saiba nenhum deles se chamava aniki bóbó]

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