para ler, usar e deitar fora

Caro Leonel Vicente,

Muito lisonjeado fico com o endereçamento que me é dirigido, e atrapalhado, também. Tenho muita dificuldade em compreender que importância poderão ter para os outros os livros que mais gostei de ler (estou a presumir que será este o critério), sobretudo se o tiver de justificar. Para agravar, é indisfarçável a aversão que tenho a todo o género de “correntes” de mails e/ou post’s, já que estas são de forma geral infestantes e pouco interessantes para quem se encontra de fora delas.

Por isso, em condições normais devolveria a atenção o mais educadamente que me fosse possível, renunciando ao privilégio da resposta, como aliás já fiz anteriormente por várias vezes. Mas acontece que vislumbrei agora um possível proveito neste desafio, e isso já poderá tornar a minha participação menos (auto)criticável: seleccionar os livros mais úteis! Não me é difícil admitir que associar a literatura a um critério de utilidade pode ser a coisa mais abstrusa e antipática que se possa insinuar junto de quem goste da escrita. E isso, perversamente, agrada-me. É portanto com algum impudor e até indisfarçável soberba que aqui listo os 10 livros mais “utéis” da minha vida:

  1. Os trabalhadores do mar, Vitor Hugo – fez-me engenheiro

  2. Ulisses (apenas as 20 primeiras pág.), James Joyce– fez-me estóico

  3. O Idiota, Dostoievski – fez-me admirador da literatura

  4. Princípios fundamentais da bricolagem, (anónimo)  – fez-me respeitado em casa

  5. Pantagruel, (…) – fez-me sobreviver com dignidade

  6. Por quem os sinos dobram, Hemingway – fez-me compreender os homens

  7. Meu filho, meu tesouro, Spock – fez-me deixar de ter medo de ser pai

  8. O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde– fez-me compreender a tempo os perigos da futilidade

  9. Mecânica Aplicada (lagrangeanos?), Libnitz – fez-me admirar a mais surpreendente formulação do universo

  10. O bobo, Alexandre Herculano – (quase me) fez compreender melhor esse povo estranho que são os portugueses

É óbvio que ficaria chocado se mais tarde viesse a receber de alguém, de ricochete, algo que me sugerisse leituras de utilidade, pelo que, para que não incorra em tais riscos, por aqui me fico, sem passar o testemunho, e com um grande e agradecido abraço por te teres lembrado de mim.


3 responses to “para ler, usar e deitar fora

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