fatos trocados

Confundimos tantas vezes os nossos territórios, onde julgamos que os abrigamos, com os espaços que eles próprios terão de encontrar e colonizar, e confundimos tantas vezes os sítios desconhecidos onde outrora inventámos os nossos medos e experimentámos o insucesso com o imponderável dos seus próprios destinos, que em vez de os deixarmos autónomos ir traçando a sua vida, acabamos por querer fazer deles uma segunda versão, mais protegida, sem erros, mais inábil e vazada por isso, de nós mesmos. Compreendemos isso melhor quando os vemos ultrapassar-nos em altura e subitamente constatamos que os nossos braços já não os conseguem enlear com a mesma facilidade. É aí que percebemos que esse espaço que criámos à nossa volta e que desejamos que eles habitem, sempre, poderá não ser suficiente, (que eles agora ousam ir mais longe, e vão mais rápido que nós), e só aí nos apercebemos finalmente que ao ser tecido com as nossas fronteiras, se tornou pequeno o mundo com que os pretendemos proteger.

E ainda assim, disso já conscientes, na maior parte das vezes continuamos sem ser capazes de olhar para eles sem aquele orgulho mesquinho que anseia vê-los como uma espécie de versão aumentada e melhorada de nós. Pouco nos importa como lá chegam, importa que cheguem (como se fosse possível simplesmente ‘chegar’), e que cheguem bem, sem arranhões (como se estes não fizessem parte da narrativa da nossa pele). E assim, fazendo-nos destinos dos nossos filhos lá teimamos em ignorar quão importante é eles poderem ir olhando para trás e verem o seu próprio trilho, e admirarem os sítios que traçaram e poderem disso, (aqui eles, não nós, importa insistir: eles, não nós, eles, sem nós, eles), orgulharem-se.

Um filho não pode ser nunca uma espécie de segunda oportunidade perante as coisas que não fizemos ou fizemos mal. Disso seremos um dia convencidos por força das circunstâncias que eles próprios nos trouxerem. Mas até lá, e porque todos ‘somos’ um pouco de pais, e todos cometemos os mesmos erros, cúmplices e beneplácitos continuaremos a admirar esse orgulho sovina com que alguns pais, todos afinal, ostentam os filhos como essa espécie de personagem remendada do que eles próprios acabaram por nunca ser. E assim, vorazes, trazendo-os por baixo das nossas asas, impomos aos nossos filhos aquilo que ‘fomos’ e que gostaríamos de ‘ter sido’, (é a isso muitas vezes que ousamos chamar ‘educação’; quase nunca o é no sentido estrito da palavra, é quase sempre medo), sem sermos capazes de os trazer simplesmente até junto do que é espontâneo, do que hoje ‘somos’.

E teimamos em não perceber que para eles estará traçado um outro destino. E ao mesmo tempo desistimos de ainda o alcançar connosco, esse outro destino que por ‘descoragem’ julgamos já não ser o nosso, e que por tacanhez queremos que seja o dos nossos filhos. E teimamos, orgulhosos, ostentando até, (aclamados pela tutela desta sociedade que cada vez os liberta mais tarde para poderem ser quem quiserem), em fazer deles essa versão retocada do que não fomos, nem conseguimos já ser.

A generosidade de um pai não está em trazê-los para próximo de nós mas em saber dar-lhes distância.

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