de encontro ao aconchego

A noite já se fechou para os miúdos e eu deixo-me ir ficando pelo quarto deles, um pouco distante de onde dormem, onde matraqueio algo no computador, … no que subitamente me interrompo: porque será que o Diogo dorme ao contrário? Claro que sei que as camas não têm o “contrário”, que são simétricas e têm dois topos, mas todos nós escolhemos de forma quase unânime o lado mais abrigado para aí deitar a cabeça. Só que estranhamente o Diogo, faz algum tempo já, decidiu inverter a sua posição na cama, orientando-se agora para o lado que não é aconchegado pela parede, assim mais destapado e também mais exposto ao ângulo da janela. Paro, agora absolutamente, não consigo já deixar de me interromper com isto. Pequenos detalhes como este, se não forem logo domesticados com algum rigor transformam-se numa espiral de pensamentos que rapidamente nos leva a extrapolar, e é por aí que acabo a interrogar-me se aquela postura dele na cama não poderá revelar algo menos comum na sua personalidade, uma qualquer fobia para a qual continuo sem encontrar explicação. Entretanto calha passar por ali a mãe dele, com quem partilho esta minha interrogação. Devolve-me quase espontaneamente, como se sobre isso há muito já se tivesse interrogado e há muito já tivesse decifrado a resposta:

– É porque assim te sente mais próximo, ao adormecer, quando por aqui te deixas ficar diante do computador.

Algo céptico primeiro, vou depois compreendendo melhor o que ela me vai trazendo em voz baixa: a presença, o ruído das teclas, o arrastar da cadeira, e apela às minhas memórias remotas, se não me sentia confortável com esses ruídos ténues da presença do meu pai, enquanto me deixava ir de encontro ao torpor do sono. Aquiesço. Assim ajudado percebo tudo melhor e já não me parece tão estranho que ele durma com a cabeça do lado desprotegido, que afinal o não é.

Debruço-me de novo sobre o computador. Agora ouço-lhe mais distintamente a respiração, funda e pausada. E sigo noite dentro, ali ao lado, também eu mais confortado por saber que nesta casa há mais radares que não o meu, este que tantas vezes se desliga.

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2 responses to “de encontro ao aconchego

  • susana

    coisa linda. a explicação é boa, bela e lógica (o mesmo se poderá dizer da sensibilidade materna, mas no teu caso, enfim, a piadinha é dispensável… ;)).
    aqui também aconteceu, e um conhecido deu-me feng shui de explicação. assim, nunca virar a cabeça ao norte, no sono. sul e oriente as melhores inclinações, consoante os temperamentos. alguns, mais raros, beneficiarão do poente (se bem me lembro…). uma razão assim, como a do teu, agradar-me-ia mais. :)

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  • piada Susana? a autocrítica, escancarada, já é demasiado dificil para não ser suavizada com um (ainda que ligeiro) piedoso humor, só isso.

    e se é verdade que a nova orientação ficou agora apontada a sul, quero continuar a acreditar na explicação original, que além de não ter estranhos nomes orientais, tem muito mais a ver com o bom sono lá de casa.

    (por falar em casa, aquilo é que vai um escanqueiramento lá pela v. casa aspirínica ein?! que o anonimato deste blog me continue a livrar de comentadores tão idiotas)

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