aqui …

… apenas isso, a possibilidade de amanhã me revisitar, e se o entender, poder achar-me um estranho. E nem me constrange ver-me assim exposto, a escrita a imitar a minha existência, a clamar inconfidências. Há algo de delinquente nisto, de promíscuo, de impedido, que me faz sentir diferente. Como se eu fosse marginal a tudo isso, e a mim mesmo.

O desfrute deste blog, já o referi várias vezes, não está tanto no escrevê-lo, mas sim no seu revisitar. Ler-me é muitas vezes experimentar um processo ilusionista através do qual consigo estabelecer um diálogo comigo mesmo, em diferido, o qual, de alguma forma, a distância torna mais fértil. Muitas coisas de mim tenho compreendido melhor assim – dessas coisas que não são precisas no dia-a-dia e sobre as quais podemos deixar passar anos (quiçá uma vida inteira) sem as destaparmos. Será essa a razão porque a partir de agora recorrerei a textos antigos, que escrevinhei em outros lugares, e que para aqui trarei. Alguns deles serão simplesmente copiados, transmutados, mas outros sei que irei tecla por tecla reescrever cada uma das suas letras. Porquê?, bom, para isso teria de começar por reconhecer que não fui absolutamente sincero (nunca o terei de ser) no texto que aí em cima começo por reproduzir. Na verdade, quando mergulho em alguns textos que escrevi, não me sinto nada marginal a eles, e nem tão pouco os consigo ver por fora. Há textos, eventualmente os mais carnosos, que são um inexplicável e por vezes espinhoso processo de me reencarnar das memórias e das pessoas que ainda tenho dentro de mim. Não se trata de um luto, porque essas pessoas ainda vivem em mim, e muitas delas à minha volta, no nosso mundo. Não sei discernir essa fronteira, mas consigo compreender que também eu faço parte dessas pessoas que arrisco narrar. Sei apenas que a alguns textos não me os basta ler – preciso pari-los de novo – para deles tirar o que lá guardei. É no fluir das palavras que agitamos que acabam por reacontecer as coisas que contamos, e são elas que trazem uma cara ou um gesto que tínhamos já distraidamente afogado nas saudades, ou um breve trecho de memória que nos leva numa súbita viagem à infância onde aos poucos vamos recuperando o vozeiral de sons familiares em redor da mesa de jantar. Seja o que for que para aqui trouxer, e seja como o trouxer, não hesitarei em os refazer sempre que sentir apelo disso, pois só assim neles encarnarei. A outros esconderei algumas pontas. Gosto também de sentir que neles deixo por escrever aquilo que nunca quererei e conseguirei contar. Faz-me sentir infinito.

[ Para o que então (re)escrever passarei a usar esta cor, sem mais qualquer outra referência. ]

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3 responses to “aqui …

  • loira suicida

    Sessão de apresentação do meu livro no Festival do Amor, em Beja, este Sábado, no teatro Pax Julia, pelas 18h.
    Vai haver coboiada!
    Vou estar no período fértil!

    Compareçam, se não mato-me!

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  • Olha que bom Loira suicida! desejo então pelo menos a gestação de 2 gémeos. E que se arranjem cowboys em condições, já agora … os genes

    (apenas lamento que este blog, face às suas irrisórias audiências, não possa cumprir convenientemente a função de isso propalar)

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  • Jill

    Bem, eu vinha dizer alguma coisa sobre o que tu escreveste mas, li entretanto o comentário acima [ainda me estou a rir] e epa… esqueci-me, desculpa lá!

    Não sendo loira e muito menos suicida, retiro-me, portanto, de mansinho :P

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