Monthly Archives: Setembro 2007

asas de cera

Sempre quis poder voar – nisso sou igual a todos os homens. Foi então com esse intuito que um dia me aproximei da associação de estudantes da minha universidade. Como eu, assim fantasiando, por lá encontrei mais gente, e juntos lá nos fomos organizando e quotizando o suficiente para alcançarmos partilhar uma asa-delta em 3ª mão, razoavelmente remendada. Acabámos a lançar-nos pelas arribas abaixo de St.a Iria da Azóia nos fins-de-semana que se foram sucedendo. Éramos oito ao início, e era ver-nos pela madrugada, quais ícaros exaltados, a perseguir os ventos térmicos. Depois, um por um, alguns foram debandando com braços ao peito, narizes arrocheados e coragens esfareladas, até só restarmos três. Entretanto, vítima de maus-tratos e ousadias, a asa lá se ia partindo com abusada frequência, até um dia se tornar irreparável. Sem dinheiro, os voos voltaram a guardar-se na gaveta das quimeras e eu acabei por terminar os estudos sem nunca mais voltar a pensar nisso.

Hoje, olhando daqui do cimo da minha vida, vendo-lhe a planura por diante tão previsível e vazia de obstáculos, apeteceu-me experimentar voar de novo.

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477 dias depois, e de súbito

esta abstrusa guerra de sempre,
evoca-se com as mesmas palavras, a mesma dor:

“Cada hora é mais uma braçada cansada, lançada a custo, e cada dia o princípio de um plano inclinado que tenho repetidamente de subir. Combato uma ansiedade que nunca julguei poder existir. É uma guerra sem inimigos e cujos golpes se desferem dentro de mim. Uma contenda que se trava num território que julgava conhecer e do qual tiraria vantagem, mas que afinal encontro armadilhado. Aos poucos fui-me refugiando no meu corpo, do meu corpo.  Combato já só na metade (para ser rigoroso já é menos que isso) que ainda sobrevive, na parte do meu corpo que agora irei habitar, a que resta, e à qual me agarro desesperadamente. Mas, de inconcebível, é o meu próprio corpo que(m) me quer abater (…)”

vinda do nada de dentro de mim, onde se hospeda
com voz doce acicatando-me, mordiscando-me a vontade
e assim mesmo moribunda, lançando-me o seu perfume, tão depois de tanto tempo
teimando em impedir-me de cumprir o meu orgulho, esse prémio que para mim, calado, inventei
e me anuncia, eu já tão frágil, que afinal, terei de continuar a fazer-me campo de batalha

Breve nota de esclarecimento:
Já sabeis, os leitores mais antigos – e conto por isso que não estranheis – que é aqui, assim, que extermino esta seiva que por vezes ainda escorre de mim. Para os mais recentes: não ligueis, sou apenas um fumador vestindo uma pele que ainda não é verdadeiramente a sua, e disso, com algum desespero, reclamando.


estou cansado

e de momento não me apetece empurrar-me para mais longe

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fico por aqui, desfocado, para que assim nem possa saber de mim


das palavras maquilhadas

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Todas as amizades bebem para além das palavras – na franqueza de uns olhos, ou tão-somente num simples gesto com que se hesita. É isso: a amizade, porque é construída sobre o que é sincero, alimenta-se da substância das pessoas e dos seus pequenos lapsos, que aí não é o erro que importa mas sim a autenticidade que se experimenta. É assim bem provável que ela precise das nossas hesitações para sobreviver, o que nada tem a ver com textos esmerados, palavras rimáveis e emoções retocadas. Para estas haverão leitores que eventualmente as apreciarão; para compreender as nossas hesitações e isentar os nossos erros espera-se por ali um amigo. Do lado de cá das palavras.

Este Apenas+1 acabou de perfazer um ano ontem. Considerando a habitação anterior serão já quase três anos neste atrapalho da escrita. Escrevi imensos textos (já muito para além de um milhar) o que nunca pensei viesse a acontecer, e neles escrevi muita coisa que nunca julguei ser capaz. Escrevi demasiado e fui sobejamente desastrado com as palavras. Com alguns textos criei feridas, noutros sarei-as. E escrever assim, escrever, acabou por se tornar uma inevitável hesitação em mim.


16!

ela.jpgtantos são os anos que se torna ainda mais encantadora essa brandura com que continuas a resistir


para ler, usar e deitar fora

Caro Leonel Vicente,

Muito lisonjeado fico com o endereçamento que me é dirigido, e atrapalhado, também. Tenho muita dificuldade em compreender que importância poderão ter para os outros os livros que mais gostei de ler (estou a presumir que será este o critério), sobretudo se o tiver de justificar. Para agravar, é indisfarçável a aversão que tenho a todo o género de “correntes” de mails e/ou post’s, já que estas são de forma geral infestantes e pouco interessantes para quem se encontra de fora delas.

Por isso, em condições normais devolveria a atenção o mais educadamente que me fosse possível, renunciando ao privilégio da resposta, como aliás já fiz anteriormente por várias vezes. Mas acontece que vislumbrei agora um possível proveito neste desafio, e isso já poderá tornar a minha participação menos (auto)criticável: seleccionar os livros mais úteis! Não me é difícil admitir que associar a literatura a um critério de utilidade pode ser a coisa mais abstrusa e antipática que se possa insinuar junto de quem goste da escrita. E isso, perversamente, agrada-me. É portanto com algum impudor e até indisfarçável soberba que aqui listo os 10 livros mais “utéis” da minha vida:

  1. Os trabalhadores do mar, Vitor Hugo – fez-me engenheiro

  2. Ulisses (apenas as 20 primeiras pág.), James Joyce– fez-me estóico

  3. O Idiota, Dostoievski – fez-me admirador da literatura

  4. Princípios fundamentais da bricolagem, (anónimo)  – fez-me respeitado em casa

  5. Pantagruel, (…) – fez-me sobreviver com dignidade

  6. Por quem os sinos dobram, Hemingway – fez-me compreender os homens

  7. Meu filho, meu tesouro, Spock – fez-me deixar de ter medo de ser pai

  8. O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde– fez-me compreender a tempo os perigos da futilidade

  9. Mecânica Aplicada (lagrangeanos?), Libnitz – fez-me admirar a mais surpreendente formulação do universo

  10. O bobo, Alexandre Herculano – (quase me) fez compreender melhor esse povo estranho que são os portugueses

É óbvio que ficaria chocado se mais tarde viesse a receber de alguém, de ricochete, algo que me sugerisse leituras de utilidade, pelo que, para que não incorra em tais riscos, por aqui me fico, sem passar o testemunho, e com um grande e agradecido abraço por te teres lembrado de mim.


porque nem tudo são minudências

há um fulacunda nada discreto a evoluir nesta caixa de memórias

(e já agora, a propósito de motas, vamos admitir que o meu irmão mais velho não é gajo para visitar este blog)


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