Monthly Archives: Novembro 2007

gizar rumos, encher pulmões …

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pronto

logo agora que até se respirava um certo ambiente lírico neste blog,
é que tinha de me pôr a olhar lá “para fora” !

definitivamente, e por muito que o lamente, isto nunca há-de vir a ser o tal álbum de família.


coisas malcriadas da minha irritação

Greves à sexta …

Se este blog permitisse labels, o deste post seria assim:

LABEL: empacotai a vossa ética, aproveitai o fim-de-semana grande e ide-vos foder


dias rasgados

Nove da manhã. Caminho para o trabalho. Vou só, absorto, antecipando o que me espera hoje. O portátil pesa-me e o sol ainda que aberto não amacia o frio que me entra pelo casaco. Subitamente uma carrinha estaca uns metros à minha frente. Reconheço-a e alcanço-a em três passadas largas na pressa de não a fazer esperar. Depois debruço-me sobre o vidro que se abre. Um sorriso, enorme, e todo meu, a desejar-me um bom dia. Só isso. Depois parte, e é ali que dividimos o dia. Fico por momentos parado debaixo das quatro acácias a desfiar a sua encantadora atrapalhação, a forma hesitante como se dividiu nesse partir. Ocorre-me que me quisesse dizer que hoje poderíamos não fazer assim, a separar-nos cada um para o seu lado. A carrinha dá a curva ao fundo e foge-me da vista. A manhã volta a ficar fria, o tempo acelera e os problemas que me esperam voltam a ser importantes e a ocupar-me de novo. E empurro-a até ao fim do dia. Apressadamente. Que é lá que a encontrarei de novo.


das coisas da escrita

Quase não queria acreditar quando ontem, em conversa que surgia espontânea, me ouvi dizer que “sobre isso (isto) do escrever já algo de próprio terei escrito”. Terei aí percebido essa soberba de quem escreve, capaz de parafrasear hoje com presunçosa firmeza sobre aquilo que ontem em arrepios de incerteza terá discorrido, como se, assim distante, se despisse da sua própria carne. Bruscamente, uma desconfortável vergonha ter-me-á impedido a tempo de o fazer, graças a deus, e lá terei voltado ao presente, à conversa, ao respeito que me merecia o meu interlocutor, pelo que a (auto)citação se terá deixado ficar nos recônditos da pedante memória. Há soberba sim nisso de acharmos que o que remotamente teremos pensado ali, noutro instante, se pode prestar agora. Como se pudéssemos assim valer-nos do que já fomos para nos substituir-nos naquele momento em que outros nos escutam. Como se pudesse haver algures uma razão que ousasse justificar isso de querermos fazer de nós um homem em diferido.

Aqui é diferente. Aqui posso tudo. Aqui escrevo sozinho e pouco me importa se me repito, se me duplico, se me tenho mais uma vez em diferido. Posso até dar-me ao luxo de aqui citar o que já terei escrito conferindo-lhe a importância que só eu acho que terá. A soberba aqui é ainda minha, mas só minha, não carecendo de ser desculpada.

L., tu que cá não vens, a ti posso agora dizer – era isto que citaria, se ousasse fazer de mim um embuste de mim:

Os comunicadores puros preferem o ruído, as vozes, a agitação dos gestos e das expressões, e nisso se saciam e concluem. Os que escrevem preferem o silêncio e o recato, e aí lançam na escrita o que normalmente calam, num exercício onde tentam reconstruir o que lhes ficou por dizer. É um lugar de resíduos do que não chegámos a falar ou a fazer acontecer, um espaço para onde se trazem as coisas incompletas cujo fim não ousámos ou não conseguimos concluir.

A escrita é a linguagem dos tímidos e dos ávidos.


o vozeiral

Em quase todos os dias da minha infância

… com o cair da noite sentam-se seis crianças ao redor de uma mesa de tamanho invulgar. No seu centro além do pão, do vinho e da água, há um tacho enorme. Entre elas, e de cada um dos lados da mesa, um casal, nem novo nem velho, vai distribuindo pelos pratos doses medidas de acordo com a idade dos miúdos. Todos começam ao mesmo tempo quando a mãe finalmente se senta e dá mostras de também ela se ter disposto para jantar. Como se por sinal invisível, de súbito, uma, três, cinco, vinte histórias começam a desenrolar os episódios do dia de cada um. Não à vez, mas de forma sobreposta. Todos parecem ter essa capacidade de falar e escutar várias conversas ao mesmo tempo e de saltar de umas para as outras com a ligeireza de passarinhos em seus galhos. Por vezes cresce tal a algazarra que o pai faz sobrepor a sua voz, abrandando-a. Depois tudo recomeça de novo, uns em crescendo ao quase brado, outros, mais novos, pouco mais arriscando que um sussurro. E é assim, como num jogo, que vão coleccionado os acontecimentos narrados nesse zoar comum a que chamam ‘vozeiral’. No fim da janta apanha-se a mesa e a vida de cada um, de tão contada, torna-se comum aos outros. Mais um dia feito de tantas partes. É uma sorte ser criança numa família tão grande, e poder ter tantas vidas ao pé da nossa quando chega a noite.

Hoje, quando se juntam, à volta destas seis crianças sentam-se mais os seus dez filhos, e a mãe, e o vozeiral continua. Depois de tantos anos ainda estranham não ouvirem já ser lhes pedido para que lhe afrouxem o tom. Mas o vozeiral continua. Continuará sempre. Com todos.


e conversa puxa conversa

Apenas para informar que no próximo sábado, durante a noite, e com muita pena minha, não poderei aqui estar presente para acolher os ilustres visitantes, já que irei estar presente em outros compromissos profissionais.

Já agora aproveito o ensejo para estender o convite à participação neste evento (embora não sendo da organização nem tão pouco participante no blog não tenho medo de ninguém, o que me permite cometer este tipo de abusos), de todos aqueles que sendo olivalenses ou simpatizantes desta evocada nação bairro, que poderão, se o pretenderem, inscrever-se através de formulário próprio.

Às socas, com declarada saudade, deixo o agradecimento devido pela indicação e (até) apresentação do local do repasto.


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