Monthly Archives: Dezembro 2007

falta de indeterminação

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No arquivo deste blog (e do outro) enumero pelo menos três histórias que ficaram interrompidas: uma da minha experiência na área da criminologia que não ficou acabada, outra da minha árdua serventia no matadouro de beirolas que não foi continuada, e a última, sobre as minhas planações náuticas, que nunca chegou a ser começada.

A minha lei da continuidade? assim, escrevendo apenas metade para não (me) esquecer, e deixando a outra metade para assegurar que (me) tenho de continuar.

Pelo meio importa ignorar a hipótese de vir a acreditar que todas (ess)as histórias já existem. Nem o passado o quero previsível. Será disso que fujo, o de já me saber?

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… e a propósito

O infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe no papel.

PAUL VALÉRY, Monsieur Teste

convulsões aritméticas

Pode-se sempre redesenhar os problemas. No limite poderemos presumir que só as coisas tacteáveis, porque podem ser sondadas, e porque mais próximo de nós lhes podemos compreender os contornos, serão verdadeiramente problemas. Todas as outras de dimensão inauscultável e que decerto não caberão no côncavo da nossa consciência serão equações de resultado indeterminável. Há nelas uma inexequibilidade que nos transcende, e isso não nos permite classificá-las como problemas. Serão eventualmente dilemas. E os dilemas não são passíveis de serem resolvidos. São uma abstracção em forma de problema mas cuja variante lhes confere uma vontade própria, cintilações com propósitos que não somos capazes de compreender que se acendem ou esmorecem para além do nosso entendimento. Resumamo-los então a serem observados, e preocupemo-nos com as equações para as quais nos sentimos com suficiente capacidade matemática.


ensimesmamentos

Subitamente ouço-me como se estivesse de fora, e espanto-me com o que digo. Há muita maldade no tom, no som e nos significados que atiro. E tudo isso é algo de inexplicável. Os sentidos que a princípio ainda quero transmitir transformam-se rapidamente em interjeições, e estas diluem-se numa mole de alaridos indecifráveis. Não há nada que possa justificar este vento de fúria com que arrojo as palavras que intercalo com sílabas cada vez mais ásperas, como se assim melhor pudesse embrulhá-las em vírgulas para depois as lançar, mais escamosas, mais acutilantes, nesta minha estouvada gritaria.

Só muito mais tarde, quando já pouco ou nada posso fazer e me deixo envolver na ressaca de um conjecturável manto de silêncio, é que começo a decifrar, lenta e custosamente, o estupor que em mim vesti. Olho em redor e já nada me rodeia. Estou finalmente onde quero, no meio dela, dessa penumbra de gente. Mas se são tantas as vezes em que preciso de me envolver nesse negrume, se é irrefreável esta necessidade que me impele para o vazio, o desabitado, quando deveras anseio pelo descanso, porque continuo então a apedrejar os sentimentos desprevenidos com que os outros, incautos, me tentam ainda tocar?

Como é possível que ainda não tenha encontrado outras formas mais delicadas de os afastar, aos outros, quando preciso de me conduzir para a solidão? Que tão certo como a ela recorrentemente procurar, é dela sempre querer retornar. E para encontrar os outros, a vida, do lado de fora do negrume com que me rodeio e do qual invariavelmente volto a querer partir, é necessário que por lá ainda esteja alguém, alguém que …, apesar de …, ainda segure a candeia que me orientará no caminho de volta à normalidade. Porque mesmo esquecendo-me dos outros, neste ir e vir, só serei homem enquanto os outros não desistirem de mim.

 

 

Pois cada vez mais me repito e de cada vez mais perto me chegam essas repetições. Isso deve querer dizer da angústia. Essa que faz crescer a necessidade de me repetir, e nisso maior urgência em escrever as coisas que preciso repetir. Falta-me espaço em mim. Mas para quê?, para no fim dizer o mesmo, coisa de redobradas escusas?


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