Monthly Archives: Janeiro 2008

escaparates do ego? *

essa ânsia final pelo livro editado, pelas palavras impressas,
(não ironizo; até confesso descaradamente que também a sinto),
terá a ver com o síndrome da imortalização?

 

Mensagem privada: N., enfim, até tenho pensado no assunto. Se as soubesse casadas com belas ilustrações quiçá não arriscaria o despudor de grafar algumas.

 

* dos privilégios do autor deste blog consta a ‘autodistinção’, mormente a de poder realçar em post aquilo que em boa verdade deveria apenas evoluir na caixa de comentários do post debaixo


Estado da entrada: “privado”

semi1.jpg   Ao longo de quase 3 anos escrevinhei sem tino nem vergonha tudo o que à caneta se assomou. Depois, aos poucos, a inibição  sobreveio, e quando dei por mim tinha dois blogs: aquele que aqui se vê, e o outro, cujos post’s estão em rascunho nos confins desta coisa. Descubro agora por mero acaso que esta plataforma do wordpress permite publicar post’s “privados”. Não é simpático o que confesso, mas não consigo disfarçar que me faz mais desenfreado saber que posso assumir pela escrita as coisas que me incomodam, que as posso até publicar, e ainda assim, escondê-las dos vossos olhos. 

De certo modo esta funcionalidade de filtragem torna este blog extraordinariamente parecido com a minha vida. Tal como nela, posso agora aplicar uma película de invisibilidade a cada traço ou acto meu que não ouse partilhar. Posso agora modelar aquilo que quero parecer e extasiar-me ao escrever em privado os meus defeitos e achaques, como se cumprisse arrependimentos sem que ainda assim tenha de os reconhecer.

É entusiasmante, mas é também algo demasiado voraz essa avidez com que pela nossa escrita vamos destapando partes de nós, que desconhecemos, ao mesmo tempo que os outros, por cima dos nossos ombros, nos (as) lêm.  Agora, Poderei continuar a escrever ‘liberto’ mas já não terei de me ‘descarnar’ em público. E se um dia isto acabar por me parecer mero exercício entrapado, como aquele com que nos ocupamos a mostrar/esconder-nos na realidade dos dias comuns, não hesitarei em reconhecer que este blog se transformou efectivamente numa cópia enfadonha da minha vida, no que dela imprimo, e no que dela procuro esconder. Nessa altura terei de arranjar um novo confessionário … 

humm, o que será que se seguirá aos blogs neste exercício descarado da intimidade?


o trânsito das nossas vidas

É a seguir ao jantar que mais estranhamos – sem nada que nos interrompa, sem os contentamentos gargalhados que costumam escapar-se do quarto ao fundo, sem birras nem arribações – a noite a fazer-se tão longa. Acostumámo-nos a usar apenas metade do tempo só para nós dois. A outra metade, agora vazia, espera a volta deles. Quando partem para férias deixam-nos como Lisboa em Agosto, a princípio sossegados, depois estranhamente vazios, já quase sem vivalma, atrapalhados por não saber o que fazer com a falta do trânsito.

É nestas alturas que me apercebo que um destes dias, quando eles partirem, teremos de reaprender a viver.


questões de métricas

Num dia sincero
Decidi calar aquilo que não querias escutar
Num dia sincero
Deixei que a minha causa ficasse por falar
E num dia sincero
Fiquei a olhar-te no medo de te perguntar

Num dia sincero
Descobri que todos os dias são assim
Como um dia sincero
Que não se quer fazer sofrido
Que não se importa de ser sem mim


escolhas estratégicas

… ao jantar falávamos sobre a dificuldade de escrever em grupo.

– Eu também não gosto. E além disso despacho-me melhor sozinho. Ainda no outro dia fizemos uma composição sobre uma história à escolha e como estava sozinho acabei vinte minutos antes dos outros que só discutiam e não escreviam nada.
– E depois, aproveitaste para melhorar o texto?
– Não, a professora deixou-me ficar a ler o Harry Potter.
– Mas não te digo sempre Francisco que devias rever os textos?! Não basta só o que se conta, também importa como se conta. E isso requer tempo e método.
– Mas eu revi.
– Pois
– Oh Pai, mas eu escolhi a menina dos fósforos.
– E?
– E … E eram só três fósforos!

Por vezes, a preguiça é uma arte


o melhor jogador do mundo é aquele que as(si)m se acha

   – Pai !! – e quase gritava, exuberante de orgulho – o meu treinador disse que eu era o melhor placador da equipa.
Há sempre um elogio que ele traz e propaga, depois do treino, enquanto os conduzo para casa.
   – Boa Diogo, boa.
Intercala um momento de silêncio, e depois repete-se, como se pretendesse deixar isso claro a si mesmo:
   – O Mauro disse que eu era o melhor placador … – depois um leve tossir, um baixar do tom de voz, e ouço-o concluir de forma quase imperceptível no banco de trás – … indirectamente.
   – Indirectamente? Mas então disse ou não disse?
   – Disse. Disse, disse.
   – Então porque dizes que o disse indirectamente?
   – Porque ele não queria envergonhar os outros meninos, acho eu. Hoje no treino o Mauro disse que o melhor placador da nossa equipa era o arriére. E que era por isso que ele tinha cuidado a escolhê-lo, porque o arriére é a ultima defesa da equipa e depois dele não há mais ninguém.
   – Ah, falava de ti. Boa!
   – Não, falava do arriére.
   – Pois, mas tu és o arriére da equipa não és?
   – Pois sou.

   – Às vezes sou.


Há 12 anos, nascia no meu segundo filho a continuação do meu pai . E eu prolongava-me, muito para além daquilo que alguma vez ousaria ser

diogo1.jpg

Se forem dois irmãos é quase certo que terão naturezas opostas. E se ao primeiro lhe sair em sorte esse deslizar aéreo sobre as coisas, esse estar-e-não-estar, então sobejará para o mais novo aquilo que normalmente são traços de irmão mais velho – a voluntariedade. Fica-lhes o encargo de tomarem conta das coisas. São os que ficam para trás quando alguém se deixa atrasar, ou que dão o peito quando alguém lá na frente receia algo. E há nisso um insaciável desejo de agradar, e também a contradição de não quererem dar nas vistas mas gostarem de ser reconhecidos.

As contrariedades resolvem-nas sem desvios, e suportam-nas até ao limite, em solidão. A última coisa de que serão capazes, é mostrarem as suas fraquezas em público, e por mais dolorosas que essas sejam, sairão sempre com um olhar orgulhoso, até que cheguem a casa. Aí, no calar do dia, só aí, deixarão que as lágrimas lhes corram, e apenas para dizer: “não volto lá”. E neles, o que dizem nestas alturas, é para se saber ouvir, e é bom que aprendamos a ficar antes dos limites do seu orgulho.

São naturalmente obstinados. Muitas são as vezes que conseguem em esforço o que outros alcançam com mais facilidade. São tímidos e orgulhosos, teimosos e inseguros, e nessa têmpera de contradições encontramos uma invulgar tenacidade. Nada neles é aparatoso, e por isso nem sempre os descobrimos facilmente, ou do que fazem pelos outros. Mas eu aprendi a reconhecê-los pelas mãos. São grandes, fortes e têm um jeito de dedos no agarrar das coisas que os desmascara: são as mãos de um artífice. Foi assim que as aprendi a ver no meu pai, e foi assim que as redescobri no Diogo.

Sei que na sua disponibilidade haverá muito de uma solidão especial, e que empurra para dentro as coisas que não interessam aos outros. É isso que fará com que, – mesmo que venha a alcançar quase tudo o que quer – nunca se sinta completamente feliz. E essa inquietação fará com que cada vez mais se procure realizar com os outros. Nasceu voluntarioso, mas pressinto que isso que está dentro de si o tornará acima de tudo alguém muito generoso. Há quem tenha nascido para se sentir mais nos outros que em si mesmo. Como pai receio que essa maneira de ser, tudo isso, tudo o que ele é, torne os seus caminhos mais árduos. Mas como homem sei também, tenho a certeza, que o irei respeitar mais por isso.

(reload – porque há coisas sobre as quais não sei escrever duas vezes)


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