transferências

O Vasco Barreto ocludiu-se (mais uma vez) e o “memória inventada” encerrou, faz já algum tempo. Nunca escondi o apreço que tinha pela sua escrita e pelas memórias, (afinal comuns), por onde ele fazia transportar-me. Mas a verdade é que já nem esta perda lamento. O meu afastamento * da blogosfera tem vindo a ser progressivo e desapiedado.

* Talvez não seja exacto falar de um ‘afastamento’ já que não concebo este espaço como uma comunidade, como um local de proximidades, talvez como no início da sua exploração supus poder ser. A única coisa que aqui nos une é a escrita, e as ideias que ela eventualmente carrega. Não consigo perceber relações de proximidade sem a interpretação da emocionalidade dos gestos, das feições e sobretudo das suas hesitações, isso que a escrita inevitavelmente encobre. E sem essa percepção não há gente além mas apenas textos, que podem até incendiar-nos, ou deixar-nos indiferentes, e que podemos nalguns casos até trazer para nós e vesti-los, e chamá-los nossos. E tão apenas isso: serão já nossos, mas já apenas nossos. E entretanto, ‘lá’, alguém escreve mais outra coisa, sobre ela, para ela, e que mais tarde leremos indeferidamente, e que tomaremos de novo para nós. E onde está a afinidade essencial a uma comunidade nesta partilha de textos?

Na verdade, afasto-me na medida exacta em que os (já poucos) blogs que considero de paragem incontornável se vão encerrando. Isto porque raramente renovo já as minhas preferências. O que não quer dizer que acidentalmente não me deixe prender por um novo espaço de leitura. Mas faço-o comedida e silenciosamente. Já nada tem a ver com o barulho com que outrora atroava tais descobertas com outros viandantes. Assim, agora, apenas declaro, já quase para ninguém, o meu gosto por esta leitura de que já não me consigo evadir.

(Há tempos terei dito, depois desdisse-o, e hoje reafirmo-o: há escrita feminina. Não a dos poemas e da sensibilidade alada, das figuras nebulosas e dos tons pasteis. Falo do compasso do texto, da forma como se nos leva a respirar entre as palavras e também no cuidado como se as escolhe, no timbre que se usa. Subtilezas de forma, do sentir, da palpitação para além do verso, aptidões onde os homens em geral são inábeis. Na vida também.)

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