pela calada da noite

 

Dormem já cá por casa e o cansaço arrasta-me nesta moleza de me ir deixando ficar. E no entanto agarro-me a isto, a esta coisa que se escreve e que não sou capaz de suster. Vem normalmente assim, em ímpetos, fazendo alarido por cima das afáveis rotinas, e vem vestida de vontade súbita, dominadora e estridente. E é assim que me prende, submisso, apoderado, redigindo, expectante. É aliás assim que agora estou, a ver-me de fora amarrado em gestos robóticos de escrita, incapaz de presumir a linha que aí vem, a palavra, até a letra.

Raramente me apercebo logo desta intrusão mas desta vez deixei a minha atenção entreaberta, nessa penumbra da consciência de onde ainda se olha mas já nada se opõe. Apenas o suficiente para me envergonhar do primitivismo que neste corpo se embala, e que depois me percorre e se escoa até à ponta dos dedos, dos quais me soa este matraquear oco e louco que os anima nessa tosca necessidade de preencher uma linha mesmo que vazada de significados, só pela ânsia de me saber indelével.

E assim, ainda que entorpecido, vou percebendo que isto que me invade, desenfreado, mais não é que a capa da vontade criativa, essa coisa que na modéstia uns dizem ser rasgos e outros, mais sinceros e reflectidos, apelam a utopias acerca da eternidade. Mas aqui, em mim, mesmo sem mim, nada disto terá a ver com o artístico, isto, apenas um burilado em bruto, talvez o mesmo ímpeto, mas por esculpir, a fazer arrastar pinceladas descuidadas de uma arte que nunca cuidei, nem nunca terei. Mas criativa, sim, essa vontade de crivar de negro riscado aquilo que de outro modo nunca sairia do nada e de por baixo poder assinar, ainda que negando essa pretensão de cuidar que fica para além de mim.

E é isso, essa ânsia desajeitada de me querer fazer parecer além da pele, trazendo para a luz do dia o folgar do pensamento, a apressada e errática definição das coisas que só dentro de nós ganham sentido, sem a qualquer pouca-vergonha que certamente recomendaria as abafássemos antes de as fazer ecoar cá fora, aqui, onde outros nos podem escutar. É isso que de olhos semi-cerrados me espanto de olhar em mim, esta coisa de louco que mais do que pretender fazer sentido faz de mim mera máquina do escrever. Que, sei-o, pouco ‘lhe’ importa a qualidade do que diz mas tão-somente esta vontade de se fazer ouvir. Emitir. Emitir. Ficar.

É tarde. Eles já dormem e eu bocejo mais uma vez. Aproveito agora um momento de desatenção disso desse que há em mim para fechar esta linha. É sempre assim que acabo por me deitar, ensonado, e atrasado, demasiado atrasado. Tão atrasado que como quase sempre acabo por perder esta oportunidade de levar comigo as coisas que devia calar, de as fazer mergulhar comigo no sono, aí onde toda a gente normalmente as semeia, e por aí, dentro de si, caladas, as deixa ficar.

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