Um de nós não disfarçava ter deixado ‘demasiada’ gente em terra. Sentava-se no banco da proa, nos intervalos do nosso barulho, dos nossos risos, das nossas conversas e ficava por lá olhando para diante, respingando-se de mar. Depois voltava para nós, bucólico, com o seu eterno sorriso de criança, como que para reatar a nossa companhia. Olhava-o pelo canto do olho a voltar enquanto ía dançando no embalo do barco e de sempre que o fazia percorria-me a ilusão de ele voltar mais adulto. E isso acontecia todas as vezes em que ele se abrigava lá na proa e de lá voltava. O mar engana.

O mar engana: transforma-nos tão subitamente que chega a fazer-nos duvidar daquilo que agora somos. Já em terra, reflectindo nisso, até admito que num adolescente apaixonado ele possa provocar uma transformação tão profunda que aos olhos de um homem céptico isso tenha de ser vestido de ilusão.

Anúncios

2 responses to “

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: