a dobradinha (1974)

O texto que se segue foi originalmente publicado na Olivesaria há umas semanas atrás. Há uma razão especial para o trazer para aqui hoje, mas essa, ao contrário do texto, já é mais dificil de partilhar. Fica a história.

 

Ao fundo da rua espraiam-se os bólides de madeira, quase duas dezenas. Estão pintados de todas as cores e imitam os carros do Fittipaldi, do Stewart, do Cevert, do Ickks, com um rigor quase ‘veneratório’. Em redor deles há uma multidão de miúdos e graúdos, tão tumultuosa como as que se vêm nas grelhas de partida das corridas que ali se imitam. Há razões para isso. Estes carrinhos de esferas são especiais e enchem o olho de todos os que se habituaram a vê-los como mais que mera tábua com rolamentos. Têm dimensões regulamentadas, inspecções técnicas rigorosas, cargas escondidas para dar lastro, ailerons, bancos e estofos de espuma, segredos na lubrificação dos rolamentos, mas sobretudo são um primor para os olhos assim todos aperaltados no início da Rua 5, debruçando-se sobre a descida que os fará competir. Já todo o bairro por ali sabe que em fim-de-semana de grande prémio haverá corrida de carrinhos de esferas, no domingo pela manhã, e por isso ali se juntam entusiasticamente para admirar a competição .

 Após uma semana de treinos cronometrados ganham a primeira linha da partida os carrinhos de esferas vermelhos – são Ferraris. No da esquerda estou eu, embora receie que isso não se repare bem. Aceno aos meus irmãos mais novos. O outro, o mais velho, está atrás de mim na grelha e por isso vou-me virando para trás em provocações com a cabeça. Todos temos capacetes feitos dos barris de skip cujo topo abaulámos e onde rasgámos uma viseira que recortámos a x-acto, depois pintados na cor dos originais. O meu é vermelho e branco, como o do Arturo Merzario. Está calor e sinto-me distante do mundo com a visão assim estreitada pelo capacete e o cheiro químico a lavado dos restos de detergente. Naqueles breves momentos antes da partida ainda me pergunto se os meus pais, e os pais dos outros, ali na beira do passeio, saberão reconhecer-me assim tão equipado, logo ali, na pole position.

Depois fixo-me na bandeira que vai sendo levantada pelo Jaime, cinco, quatro, será que pus demasiado petróleo nos rolamentos?, três, dois, e tinha de ser logo hoje que a minha mãe haveria de descobrir que tinha ido ao óleo da máquina de costura, largada! Podem dar-se 3 impulsos apenas, é importante não esquecer senão será a desqualificação. Esta é a parte mais perigosa. Fixamos a mão no alcatrão e esticamos rapidamente o braço para embalar o carro, o primeiro já está, o alcatrão está morno e enquanto preparo novo impulso exulto por me ver livre das temíveis pisadelas com que os rolamentos nos trincam os dedos. Segundo impulso. Sinto de súbito um impacto por trás e isso faz-me perder eficácia no momento em que me ia esticar. Três, rápido que há que recuperar. Passam-me o Chico, meu companheiro de equipa e o João, transformado em Ronnie Peterson. Atrás houve ‘molhada’ e presumo que já não seguimos todos.

A pista é desenhada a giz com restos de estuque ao longo da rua de alcatrão que desce até às vivendas de lá debaixo. Ziguezagueia em toda a sua largura e aproveita cada obstáculo da forma mais escrupulosa possível. A próxima curva à direita é das piores, quase gancho, e devemos evitar derrapar os carros pois isso faz-nos perder demasiada velocidade. O João discute com o irmão o topo da corrida, logo ali ganhando-me alguma distância e agora sobem os dois pela rampa do passeio da casa dos corte-reais para descerem na outra a seguir,  à frente da casa dos sabbo, e voltarem ao alcatrão. Agora é a minha vez e sinto o saltitar do empedrado onde batuca o martelar abafado das rodas de aço. Mantenho-me em terceiro. Segundo!, segundo!, o João foi desqualificado. Em cada curva há um fiscal de corrida – os nossos irmãos mais novos – que deverá levantar a bandeirola se algum de nós cortar os limites da pista. O João já foi! Entretanto sou abalroado por trás, o Nica pois claro, quem poderia ser mais! O carro derrapa, demasiado, demasiado, reequilibro-o ainda com o peso do meu corpo, em contrabrecagem,  mas levo outro toque e sou empurrado para a berma da estrada. Parado. Passa um, passam dois, controlo a raiva e preparo o empurrão – nestas circunstâncias cada concorrente pode dar apenas um impulso para ganhar velocidade.

Mais de meia corrida e entramos agora na parte mais rápida. O Chico, largado, sózinho, vai ganhar, viva! O Nica e o Miguel disputam ferozmente o segundo lugar, mesmo antes de entrar na longa recta que os levará até à meta. O meu impulso foi bom e nesse embalo vou aos poucos recuperando caminho, enquanto reparo orgulhoso que algum público vai puxando por mim. E depois o imprevisto aconteceu. Os dois na minha frente engalfinharam os eixos de trás, acho que o Nica partiu mesmo a travessa de madeira do lado esquerdo. O Miguel acabou por dar um peão completo, mas controlou-o, forçou a derrapagem e conseguiu manter-se em pista e vai agora recuperando a velocidade com embalos do corpo. Eu venho atrás, de lá detrás, já menos atrás, já atrás. O Chico cortou a meta, levantou-se imediatamente do Ferrari e incita-me nestes metros finais. Zzzzzzzzz, quase em cima da meta, perante extasiados aplausos, consigo assegurar o segundo lugar e fazer a dobradinha. Foi a melhor corrida da época … e sem sequer usar o óleo da singer (uma novidade estimada, eléctrica já) da minha mãe.

 

[ Sinceramente não sei se eu e o Chico alguma vez chegámos a fazer a dobradinha, pouco importa aliás. Mas confirmo que estes dois pilotos da Ferrari foram os vencedores absolutos dos dois campeonatos que se realizaram entre as épocas de 1974 e 1975. O feito é ainda mais assinalável já que éramos os irmãos mais novos em corrida do tipo do Tyrrel e do tipo do Lótus JPS. Muito mais novos aliás. Quase 2 anos.]

Nota; janeiro 2011: Mas ganhámos. Durante uns anos continuámos a ganhar algumas outras coisas juntos, com a cumplicidade de sempre que aproxima dois pilotos da mesma equipa. No liceu, na mesma escola, na mesma turma, na mesma carteira. Um ano e depois outro e até outro mais. Depois separámo-nos e cada um seguiu a sua corrida. Nunca chegámos verdadeiramente a voltar a fazer a mesma corrida, mas acenávamo-nos ao longe, com a cumplicidade de dois bons amigos naquele território da pós-infância e dos sonhos. O Chico chegou primeiro ao final da dele. Um dia também eu hei-de cortar a meta e tenho a certeza de que nessa altura o hei-de encontrar de novo, aos pulos, a puxar por mim. Há sempre nestas ligações de infância – não há melhores amigos do que aqueles que partilharam connosco a explosão da vida – uma espécie de eterno retorno, ao fundo um abraço, estendido, a cumprir com o que ficou por dar.

 

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