Monthly Archives: Agosto 2008

propósitos da “quinta do lazer” (2)

 A realidade nem sempre se desenha com contornos cristalinos e a verdade facilmente se pode tornar imprecisa, inacabada, até supérflua. Nenhuma das duas é realmente importante só por si.  Servirão essencialmente para formar uma espécie de meio-ambiente onde podemos expressar a nossa ética, mas isso só se releva num quadro de socialização. Retirando os Outros desta análise continuo a achar que a realidade e a verdade não são importantes – fazem é parte de um modelo de percepções e comportamentos sem o qual (aparentemente) não nos conseguimos medir. A sua ausência, o pavor de um dia acordarmos sem saber onde estamos e sem saber o que fomos até então, isso é que leva a que nos agarremos ao táctil e ao ético como o único modelo de partilha, através do qual o reconhecimento e a nossa projecção nos outros nos habilita e, porque não dizê-lo, nos conforma.

Mas cada vez mais admito que tomar a realidade/verdade demasiado a sério, transpô-las para além de meros conceitos cognitivos e intelectivos que são, pode trazer uma grave insuficiência: a de deixarmos de poder habitar as nossas quimeras do sonho, as nossas florestas de ilusão, os espaços onde por vezes ainda arriscamos procurar novas nascentes de felicidade e fruição. A realidade, a verdade, não são muito importantes, a menos que nos tomemos demasiado a sério, mas isso será não mais que mero constrangimento nosso.

Mas também é verdade (lá está ela, a ‘verdade’, a ajudar-nos a vincar a certeza do que dizemos) que este processo de nos fazermos evoluir para além da moral, do útil e do pertinente, dos comportamentos e das responsabilidades, o alcançar a dimensão onírica e por lá nos deixarmos enredar ainda que com regresso marcado, é um exercício exigente e preverso. E a verdade (outra vez ela), é que poucos de nós nos deixamos fazer de loucos, além de que receamos de forma absurda não sermos compreendidos.

 

Mas depois, claro, regressa, essa, a realidade. A bater portas, ruidosa, desajeitada, até frígida se lhe olharmos para os contornos e não tivermos a exaltação suficiente para admitirmos que dentro dela pode caber tudo. Tudo, de novo.

PS: na na, as férias não estão ainda a acabar e este não é um lamento descontrolado !! aliás, devo dizer que neste preciso momento me interrogo se quero voltar delas. e não falo obviamente da questão geográfica que interpomos para as fruir, a qual aliás, por mais ilusão que tenhamos, apenas nos adormece a pele. falo das férias que entranham para além da epiderme. em suma, gosto deste ir avançando de espírito toldado e vontade amaciada. desta possibilidade de acreditar que, mesmo regressando, poderei continuar assim, menos áspero, talvez menos atento. até porque a verdade, insisto, não pode ser o mais importante. admiro-os muito mas pelo menos eu não quero ser desses homens para quem a verdade é o mais importante.

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retiro já tudo o que disse

$@&#%{» dos bichos. Se não são moscas são mosquitos!!

Já não há respeito pela poesia


propósitos da “quinta do lazer”

Lá de fora chegam as cigarras. Sigo-lhes o som na janela e dou-me a vaguear pelo quilómetro das salinas, depois passo a foz do Arão, sobrevoo as dunas do Alvor e finalmente mergulho no oceano escuro do horizonte. Um ligeiro levante disfarça a torreira cá fora e com ele retrocedo e volto para o texto de onde tinha partido.

Em grupos e algazarras, aos pares, depois os atrasados, todos se foram juntando aos que já tinham ido e eu, quase réptil, escondido em escusas vagas, a deixar-me ir ficando, até já só bastar eu e as cigarras, agora mais insinuadoras a adornarem o silêncio, e a barra do Alvor esbranquiçada ao fundo, e um texto que se vai escrevendo na tentativa de se explicar porque se vai escrevendo, sem nada mais que isso. Fundear o meu ócio na densidade pastosa deste calor e com um qualquer propósito frágil poder levar-me a pairar neste som do silêncio parece-me um excelente instante de férias. E depois mais nada. Provavelmente fecharei o portátil e saltarei para outro instante onde não me importe pousar.

Estar só, sobretudo para os que ao contrário de mim não têm essa condição como uma escolha de que se possa voltar logo, logo, para esses a solidão deveria ser sempre assim, sem gente, mas cheia de mundo à volta.

 

 

 

foto do Bill -enquanto não mostro a janela para as cigarras
(já agora, tu não te esqueças de me regar as plantas pá)


Comentário sobre a invasão da Geórgia e subsequentes invectivas diplomáticas

Em circunstâncias vagamente análogas Staline perguntava “Quantas divisões blindadas tem o Papa?”. Putin acaba de perguntar com a mesma clareza.”Quantas divisões blindadas tem a UE?”


olimpismo

            


intimidade

 

O primeiro parágrafo do texto que se segue foi copiado de algo escrito há precisamente 3 anos. O segundo parágrafo é acrescentado agora e por isso é provavel que se pressinta uma invisível linha de fragmentação. Três anos, por vezes, são tempo mais que suficiente para se poder acrescentar um parágrafo.

 

Em nosso redor existem 3 mundos. O que nos vem de dentro, o que nos tem lá fora e o dos outros que nesse vivem. Quando trazemos este último até nós é tão longa a distância que o fazemos percorrer, são tantas as mazelas que lhe cometemos pelo caminho, fica este tão estropiado para caber dentro de nós que, quando finalmente o julgamos ‘ver’, nem nos apercebemos que esse outro ‘mundo’ que fizemos chegar para junto de nós, afinal, mera imagem, nunca chegou a ser verdadeiramente nosso. Complicado? É por isso que tantas vezes, para simplificarmos, gostamos de chamar a isso “intimidade”, esse momento em que julgamos que o que está ‘lá fora’ também é nosso.

Depois vêm os compromissos, os juízos, os entendimentos e desentendimentos. De tudo isso abusamos sem nunca confrontarmos aquele com quem partilhamos a tal intimidade, e definimos conclusões como se fossem portas de saída, e desenhamos justificações como se fossem trajectos, e construímos todo um ror de argumentações que nunca irão ser confrontadas. Porque quase sempre é já tarde demais quando compreendemos que nos digladiamos com uma imagem que criámos dentro de nós, um avatar do outro com quem supostamente partilhámos essa intimidade. Por isso é perigosa a intimidade: no limite retira importância àqueles que mais prezamos.


as formiguinhas de beijing 2008

 

Estava ainda há pouco na almoçarada com a malta mas não fui capaz de reprimir alguns olhares de soslaio ao TFT onde se passava a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos.

Espantoso! Era-me absolutamente impossível evitar seguir aquilo. Eu que nem me entusiasmo muito com esse tipo de números coreográficos não irei perder a emissão em diferido que espero venha a passar ainda hoje. Só os chineses para envolverem 50 mil figurantes em absoluto sincronismo com um rigor e uma disciplina que duvido seja alguma vez possível imitar num país ocidental, ou em qualquer outro lugar povoado de humanóides.

 

Mas assusto-me, confesso. Ver esta irrepreensível harmonia num desempenho colectivo arrebatador põe-me a pensar o que poderá ser aquela turba de gente-formiga, aos milhões, muito organizadinha, a estraçalhar o mundo.


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