propósitos da “quinta do lazer”

Lá de fora chegam as cigarras. Sigo-lhes o som na janela e dou-me a vaguear pelo quilómetro das salinas, depois passo a foz do Arão, sobrevoo as dunas do Alvor e finalmente mergulho no oceano escuro do horizonte. Um ligeiro levante disfarça a torreira cá fora e com ele retrocedo e volto para o texto de onde tinha partido.

Em grupos e algazarras, aos pares, depois os atrasados, todos se foram juntando aos que já tinham ido e eu, quase réptil, escondido em escusas vagas, a deixar-me ir ficando, até já só bastar eu e as cigarras, agora mais insinuadoras a adornarem o silêncio, e a barra do Alvor esbranquiçada ao fundo, e um texto que se vai escrevendo na tentativa de se explicar porque se vai escrevendo, sem nada mais que isso. Fundear o meu ócio na densidade pastosa deste calor e com um qualquer propósito frágil poder levar-me a pairar neste som do silêncio parece-me um excelente instante de férias. E depois mais nada. Provavelmente fecharei o portátil e saltarei para outro instante onde não me importe pousar.

Estar só, sobretudo para os que ao contrário de mim não têm essa condição como uma escolha de que se possa voltar logo, logo, para esses a solidão deveria ser sempre assim, sem gente, mas cheia de mundo à volta.

 

 

 

foto do Bill -enquanto não mostro a janela para as cigarras
(já agora, tu não te esqueças de me regar as plantas pá)

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