Monthly Archives: Setembro 2008

epidermes

 

E depois há a questão dos feitios. O feitio é a superfície da nossa personalidade, a película que a envolve como uma roupa que agasalha a nossa verdadeira natureza. Mas a diferença, fundamental – e é isso que por vezes o torna odioso – reside no facto de ser um traje que não conseguimos despir mesmo que o queiramos.


juntando o pó

 

Já tão pouco se me impele a caneta, já tão breves os impulsos de inventar palavras, já tão esparsas as memórias que arrasto para fora de mim, que os poucos laivos que casualmente ainda vou deixando por aí, cioso e desavergonhado para aqui os vou trazendo.

Correrão depois mais uns dias no calendário até que este espaço volte a parecer desocupado e durante uns tempos não me importarei que se o tome como uma parte de dentro de mim. Depois sei que voltarei, preocupado, alardeando fertilidade, deixando outro algo que possa parecer mais escrita de punho fácil. E hei-de voltar uma e outra vez depois ainda, como quem alimenta os peixes de um aquário herdado a que já não acha graça.

Por mais dificuldade que tenha em reconhecê-lo vou descortinando o que me continua a aprisionar aqui, o que me impede de lhe prestar um fim misericordioso. Há uma estranha alquimia que se vai formando depois de começarmos a escrever-nos perante os outros. Há uma parte de nós que inexoravelmente se enquista nas palavras em que nasce e não mais as abandonará. Passará a existir somente neste território que partilho com os outros – são eles que a credibilizam – e por isso, querer manter essa parte de nós, significa fertilizá-la com novas palavras, sempre e sempre. Parar de escrever torna-se assim, de certa forma, o anúncio da morte dessa parte de nós, a que construímos com aqueles que nos lêem. E por mais abstracta e volúvel que seja esta morte a verdade é que, deixando de acontecer diante de outros, haverá uma parte que deixará de existir dentro de mim.

E segue o tal texto-bóia . Mais uma ficha, mais uma volta!

 

Uma fileira de prédios, uma rua, escadas onde se emparelham crianças. Um estádio com relvado de cimento, tardes poeirentas, joelhos esfolados, heróis e ciganos que roubam bolas. O bairro a ficar mais comprido e novas escadas, mais gente. Corridas e calores tensos de fim de tarde. Já bandos de miúdos, já se escolhem amizades. Sobem risos e berros cortando o zumbido das horas que passam sem nada fazer. Motas, namoradas, façanhas e regressos gloriosos. Mortes. A vida a crescer, a fazer-se valer. Coisas que se contam em conversas preguiçosas pelo fim das noites entre cigarros, ganzas e grandes amizades. Desfiam-se licenciaturas, artes e outros jeitos que cada um inventa a fazer o seu futuro. Partem dali muitas estradas e os fins de tarde são agora mais distraídos. Já só por acaso as escadas os juntam, barbudos, até carecas, quase sempre de passagem. A cidade de fora cresce, engole-os, uns não voltam, nem tão-pouco se despedem – de quem afinal? outros mais tarde retornam sem avisar. A vida esticou-se e partiu-se em muitos pedaços diferentes e os miúdos, crescidos, ficaram distantes. Visitas de fins-de-semana, bicas, histórias e reencontros rápidos, quase só acenos.

Uma fileira de prédios, uma rua. Escadas. Ouvem-se risos. Alguém na pressa do passar espanta-se de ouvir ali crianças. Mas não. Naquelas escadas já não. Hoje em escada alguma. Haverá outros pousos, pensa. Haverá? Depois vira ao fundo no cruzamento e pára. Um semáforo! Nenhum outro carro pousou perto dele e ninguém lhe viu a interrogação, dentro de si, envelhecer.


 

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.

                     Mia Couto


bolas de berlim com areia

Já Setembro. Família alastrando-se pela Meia-praia. Talvez uns vinte. O primeiro círculo ao redor das toalhas é ocupado pelos mais novos. Vão saltitando de satisfação enquanto comem as bolas de berlim, esse sempre ansiado ritual diário que é fornecido pelo já grande amigo deles da cesta de vime. O mais pequeno, nem 3 anos, subitamente estaca e abre muito os olhos. Vira-se então para os adultos, boca muito aberta de incredulidade e pintalgada de açucar até às bochechas e o dedo mindinho no ar clamando por atenções:

Esta bola faz barulho! – e nisto encosta-a ao ouvido e chocalha-a. Perante o espanto de todos, insiste, buscando confirmação, e segue bramindo-a em gestos já quase irritados para baixo e para cima, para baixo e para cima. Nada. Decepcionado lá vai adiantando:

Assim não faz, mas quando eu a mordo faz barulho. Faz, faz! – e os olhos muito esbugalhados, querendo explicar o barulho … dos grãos de areia mordidos.


palavras com um abraço na ponta

Ninguém conseguiu ainda deslocar o centro de gravidade para fora do seu corpo e contudo quase todos nós julgamos ser isso possível. Quando falamos dos outros, e para os outros, somos capazes de propagar opiniões tão fervorosamente que nós próprios nos convencemos da inquebrantibilidade desses alvitres. Como se subitamente pudéssemos invadir a vida dos outros, vesti-los, deixar-lhes bem vincada a nossa prescrição sobre os caminhos que eles devem trilhar. Arrogamo-nos então de amigos, de confidentes, de indispensáveis conselheiros e levamo-nos tão a sério que na maior parte das vezes, por entre os nossos mugidos arrogantes, nem percebemos que o outro não procura em nós a nossa fala mas simplesmente o nosso ouvir.  Depois quedamo-nos com o sentido de dever cumprido, a satisfação de ter sido um bom amigo, escutado, e tomamos os nossos palpites como algo de valoroso, e a nossa atitude como um profundo e custoso gesto de amizade. “Por muito que me custe dizer-te, por muito que me custe …” como se o difícil fosse opinar, como se ter defronte de nós alguém a quem sufragamos a vida em dois minutos deixasse de ser o essencial para se tornar o mero objecto da nossa pujança opinativa, como se ao outro, a quem radiografamos a vida em voz alta e corrida, a única coisa que importasse é o que nós achamos dela, o que nós achamos que ele deve achar dela.

É preciso viver muito tempo para saber dar bons conselhos, mas é sobretudo preciso saber vivê-lo atento para no fim sabermos que na maior parte das vezes não os deveremos tentar dar. Até lá há que treinar o silêncio. Preparar-nos no escutar – não porque o que se escute seja necessariamente importante mas porque saber-se escutado poderá ser importante para o outro. Sermos chamados à confidência poderá na maior parte das vezes ser só isso – se bem que isso seja imenso. O segredo da amizade pode estar muitas vezes em sabermos nesses momentos usar o silêncio, a nossa escuta, oferecê-la, estarmos próximos mas sem intrusões, fazer com que a nossa presença se manifeste como uma possibilidade que dispensamos ao outro e não como um intervalo das nossas palavras. Admitir que não somos solicitados para ser escutados mas apenas como alma que emprestamos à (encruzilhada) solidão de alguém é um exercício de modéstia que eu ainda estou longe de alcançar. Preciso viver mais. E bem. Por isso, até lá, estarei atento, e por muito que isso me custe prometo que, pelo menos desta vez, irei treinar o silêncio.


pois. dislates de mais uma noite de bilhar

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reconstrução

Parto para a primeira sessão de Fisioterapia. Rever a Irma de novo: “Desta vez é para esticar o braço se faz favor”. Antes vou ali ver se encontro o ‘cartão de sócio’ – pode ser que já tenha descontos.
Que raio de sorte esta minha regressiva condição de ‘desmoronado’!


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