palavras com um abraço na ponta

Ninguém conseguiu ainda deslocar o centro de gravidade para fora do seu corpo e contudo quase todos nós julgamos ser isso possível. Quando falamos dos outros, e para os outros, somos capazes de propagar opiniões tão fervorosamente que nós próprios nos convencemos da inquebrantibilidade desses alvitres. Como se subitamente pudéssemos invadir a vida dos outros, vesti-los, deixar-lhes bem vincada a nossa prescrição sobre os caminhos que eles devem trilhar. Arrogamo-nos então de amigos, de confidentes, de indispensáveis conselheiros e levamo-nos tão a sério que na maior parte das vezes, por entre os nossos mugidos arrogantes, nem percebemos que o outro não procura em nós a nossa fala mas simplesmente o nosso ouvir.  Depois quedamo-nos com o sentido de dever cumprido, a satisfação de ter sido um bom amigo, escutado, e tomamos os nossos palpites como algo de valoroso, e a nossa atitude como um profundo e custoso gesto de amizade. “Por muito que me custe dizer-te, por muito que me custe …” como se o difícil fosse opinar, como se ter defronte de nós alguém a quem sufragamos a vida em dois minutos deixasse de ser o essencial para se tornar o mero objecto da nossa pujança opinativa, como se ao outro, a quem radiografamos a vida em voz alta e corrida, a única coisa que importasse é o que nós achamos dela, o que nós achamos que ele deve achar dela.

É preciso viver muito tempo para saber dar bons conselhos, mas é sobretudo preciso saber vivê-lo atento para no fim sabermos que na maior parte das vezes não os deveremos tentar dar. Até lá há que treinar o silêncio. Preparar-nos no escutar – não porque o que se escute seja necessariamente importante mas porque saber-se escutado poderá ser importante para o outro. Sermos chamados à confidência poderá na maior parte das vezes ser só isso – se bem que isso seja imenso. O segredo da amizade pode estar muitas vezes em sabermos nesses momentos usar o silêncio, a nossa escuta, oferecê-la, estarmos próximos mas sem intrusões, fazer com que a nossa presença se manifeste como uma possibilidade que dispensamos ao outro e não como um intervalo das nossas palavras. Admitir que não somos solicitados para ser escutados mas apenas como alma que emprestamos à (encruzilhada) solidão de alguém é um exercício de modéstia que eu ainda estou longe de alcançar. Preciso viver mais. E bem. Por isso, até lá, estarei atento, e por muito que isso me custe prometo que, pelo menos desta vez, irei treinar o silêncio.

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