Monthly Archives: Outubro 2008

Não sei quando volto


marte


ruído a mais

E vou ficando à escuta enquanto a consciência me vai caindo cá dentro até lhe ouvir o baque surdo com que a pressinto estatelar-se no fundo da minha compreensão. Gosto de a sentir calada mesmo quando ao negar-lhe explicações concludentes a acabo por martirizar assim. Há provavelmente quem não saiba, mas os barulhos esganiçados raramente revelam níveis aceitáveis de honradez – as virtudes nada têm para alardear. E por isso irei até supor que apunhalar a nossa consciência, desde que de forma silenciosa, poderá, contraditoriamente, parecer um acto de razoável dignidade.


alcoutim

 

Há sítios onde estivemos que só se tornam belos quando os recordamos. Há recordações que só se tornam sítios de cimento e cal quando as revisitamos. Há amizades que se tornam mais fortes quando por fim ficamos impedidos de as tocar. Há porém outras que se desfazem  no primeiro momento em que as precisamos de tocar.

Terei de reconhecer que nisto há uma imensa parte de mim que só desperta com o passado. Este imenso território que se vai guardando, é isto ir andando para velho?

Que seja. É bom.


almoço volante

Deixei-os em casa com recomendações fortes. Que iriam, sim, para o Algarve, mas que tudo teria de ser bem feito e depressa. Na conclusão de várias tarefas haveria que aprontar o almoço, por conta deles, tomá-lo a tempo, e aguardar que o tio N. chegasse para os levar junto com as primas para o Algarve. Assim os deixámos de manhã, que nós tínhamos os afazeres do trabalho, e eles que tivessem cuidado no trancar da porta ao sair. Claro que durante o dia fomos monitorizando, dentro do possível, os seus movimentos. A meio da manhã lá foram levar o primo à ‘gare do oriente’, e entrementes lá foram explicando que de almoço fariam esparguete, oh pai, sabemos sim, o esparguete do Francisco é o melhor do mundo e fique descansado que arrumamos tudo. Pois então que estava bem, lá dizia eu a contragosto, mas que se despachassem que daí a pouco estaria à porta o tio N. para a boleia acertada, lá pelas 3h da tarde.

Quando volto a ligar já não os apanho. Avanço então pelo telemóvel da simpática boleia onde sou atendido já por entre o rolar da auto-estrada. Quando pergunto se os miúdos já haviam comido quando ele lá chegara ouço-lhe o estrídulo do riso, a que se sucede logo um ‘nem vais acreditar’. Mas então o que foi?, e algum azar? – aflijo-me ligeiramente. Que nada disso, que os miúdos até lhe parecem saber tratar muito bem da sua vida. E como assim?, ou melhor, porque assim? – estranho tão invulgar e elogiosa observação sobre os mongas. E depois lá foi explicando que ao chegar lá a casa e sem maneira de os ver despachados se terá exaltado com duas ou três buzinadelas a impor a pressa. Que assim lá conseguiu que daí a pouco eles descessem com a bagagem: duas mochilas e um saco que sustinham cuidadosamente nos braço. E depois … bom, segue descrição aproximadamente textual:

Não estás a ver, nós em cima da Vasco da Gama e os putos começam a abrir o que vim a perceber ser o farnel, e tudo aquilo conduzido muito circunspectamente. Ouço os risos de incredibilidade das minhas filhas e passo a segui-los pelo retrovisor: de lá tiram um tupperware, e por entre aclamações, mais dois pratos, que estendem cuidadosamente sobre os colos. Enquanto o Francisco organiza o esparguete pelas duas doses o Diogo vai dispondo e distribuindo: primeiro o talher, e depois os guardanapos. Não estás a ver!, tu queres acreditar que até os guardanapos de pano com as argolas de plástico eles trouxeram!?

Olha, acabámos de passar Alcácer. Tudo ok, a louça já está arrumada.

 

Espectáculo! Estão desembaraçados mesmo. Enfim, talvez um pouco demais. Talvez importe embaraçá-los um pouco: Piqueniques em carros alheios?


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