Não sei se volto

Há momentos na nossa vida em que nos sentimos inaptos para proferir uma palavra que seja. O que quer que elaboremos assemelha-se a justificações que não queremos dar. O que for que justifiquemos soará a desculpas que ninguém de nós reclamará.

É quando já só nos resta falar que as palavras mais se arriscam a tomar a forma de um feitiço. A construção das palavras é um meticuloso exercício de aptidões onde inventamos sentimentos. Inventamo-los para parecerem ser nossos, inventamo-los para serem o mais fielmente parecidos com os nossos, inventamo-los porque precisamos que sejam nossos, e assim forjamos esse encantamento de nós, tão desonestamente quanto isso.

Há momentos na nossa vida, sobretudo quando sentimos que precisamos urgentemente falar, em que devemos saber calar. Que se evite a ortografia do rigor, essa estética que pouco de nós acrescenta. Que se espante essa escrita dos sentimentos, piedosa quase, que em nós tanto distorce. Que tudo isso junto, engalanado traiçoeiramente nessa mole de palavras, nos chega a fazer acreditar que nós, mais do que quem escreve, somos aquele que (d)escrevemos.

Deixemos em branco – sem rabiscos de letras alteradas – este espaço que nos habita, onde afinal, o que falta, são gestos nossos.

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25 responses to “Não sei se volto

  • catarina

    ah já temos comentos.

    Olha, assino aqui em baixo, tal e qual.

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  • és do pior tu! um gajo distrai-se, deixa os comentos abertos, e tu pimba… sportinnnggg!

    assinas por baixo nada (olha ela) se tens alguma coisa a dizer vai mas é lá escrever um post que eu não empresto nada

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  • catarina

    Olha posso sempre cortar e colar um bocado deste com a devida vénia e link, olé! Pois, eu calculei que te tivesses distraído mas depois já não tinhas lata para apagar o meu comento (ou atiçar a minha ira, agora ranhosa e fungosa ainda por cima).

    E se eu escrevesse os meus posts aqui nesta janelinha, hein? isso é que era!

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  • olha, ou vais lá pôr um post, todo bonitinho, e com a tua barulhenta verve (vá lá, só para desenferrujar), ou eu atiço-te o Fred que a estas horas ainda deve estar por aqui algures sentadinho numa caixa de comentários a resmungar

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  • catarina

    Primeira reacção “o Fred? Qual Fred?!” e depois gargalhada enorme, nem me lembrava já da criatura! Mas agora escrevo sempre “testos”. Eu depois meto um testo todo bonitinho, tá bem tá bem…

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  • o bailio

    não gostei do post :( todo ele é contraditório, gaita!

    mas estou Muito contente com a aterrisagem :)

    um abraço

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  • o bailio

    opss… só agora vi/li que “não era para comentar” :(

    se for para passar borracha… por mim à vontade. já disse o que queria dizer ;)

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  • bailio,

    realmente é verdade, há profundas contradições no conteúdo do post, aliás na sua própria natureza (escrever um texto que procure justificar porque não deve o texto justificar…). aliás, vendo bem, há fracturas e contradições ao longo de todo este blog, no interior dos post’s, e até na sequência dos post’s. acho que faz parte do meu devaneio sobre a escrita. mas agrada-me isso, de alguma forma isso atesta a falta de sinceridade, o que nesta coisa de escrever em páginas abertas é uma qualidade de camuflagem bastante confortável

    quanto aos comentos, estão abertos, é usar. o prazer é todo meu
    abraço

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  • Madalena

    Para que queres tu o prazer todo seu garganeiro?
    (ops, comentei, olha…agora já está!)

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  • todo Madalena? espero que fique algum prazer do lado de fora. não me sentiria nada bem em saber que sou o único a desfrutar deste vício de “escrever muito e à toa” (def. garganeiro segundo priberam on-line)
    (e doeu?)
    :)

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  • o bailio

    hummm… essa blog(?)-depressão que se lê por certo é ‘jetlag’. mais umas boas sonecas e abrir essa janela e olhar este Sol d’outono terrestre e passa… :)
    como terapia – ó pra mim a falar..! lol – um post ou dois à la old style e a coisa entra nos eixos, qu’a nossa blog-bitola é universal ;)

    bem, tentando ‘falar melhor’: acho que as palavras são nossas e reflectem-nos tanto como quando de manhã nos olhamos ao espelho e dizemos: “és horrível, pá!”. e não ficamos ‘lá’ parados a olhar a fealdade igual à do vizinho. saímos para a rua, a ‘vidinha’, irritamo-nos, agradamo-nos, até rimos e choramos. no meio disso tudo escrevemos um post. ele reflecte isso tudo, desde o espelho passando pelo sorriso expontâneo com um agrado até à lágrima que se dissimula quando nos magoamos. o blog é a catarse tantas vezes. mais que placebo engana-tolos. é feitiço, é. é o nosso feitiço, a mézinha tão simbólica como lavar a cara e pentearmo-nos para no espelho vermos Outro – e quem pode dizer que um dos dois é falso? são o mesmo, o resto é atitude, é… bloganço. e isso não é ruim (acho). pentearmo-nos e lavarmos os dentes e a ramela dos olhos não é dissimularmo-nos. não acredito em canetas mentirosas que tenham tanta carga assim. acredito sim que temos momentos ‘in’ e dos outros. como o vizinho (todos temos um blog. nem que escrito nos silêncios)
    mesmo a eutanásia dum blogue, a “fuga para Marte”, o poisar da enxada ou o fim duma estrada qualquer. ela, paragem, stop, fuga práqui ou práli é ela em si um post, um berro dum post. visito(-te) esses silêncios – incluindo o meu. releio ‘esses’ posts, relendo-me nos vossos e lendo-vos no meu, comparando, tentando encontrar nesses lençóis de silêncios as razões de blogar ou não blogar. o limbo. este remanso de vaguear lendo somente os outros, cansado de mim (tu de ti?). sem arrependimento pela ‘eutanásia’ mas sabendo que a fls. tantas Lázaro vai bater à porta e dizer à mesa posta: “posso?”
    há sempre um banco e uma malga a mais para nós mesmos. mesmo que crismada de ‘camuflagem’ nenhuma escrita-escrita resiste a um segundo olhar. estamos lá. o espelho. o resto? é sorrir, caramba. é sorrir… (os dedos nervosos depois encontram o caminho)

    abraço bem terrestre

    :)

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  • bailio,

    que belíssimo comentário, ele um post, quase todo certo.

    mas não concordo com tudo: a escrita pode ser mentirosa, é-o na verdade quase sempre, como um quadro que quer transcender em beleza a paisagem que retrata. nada disso é criminoso, mas dizer que essa mentira de nós somos também nós, não concordo. Perfeito a imagem que usas, nós somos os feio das ramelas e o penteado que sai depois defronte do espelho … mas não somos a imagem que deixámos pintada no espelho, sobretudo se temos como propósito a vaidade de sabermos que outros ali chegando, nos irão ver lá projectados, ou melhor, a essa imagem, de olheiras disfarçadas, com as linhas do queixo mais rectas, e com outras pequenas mentiras com que nos retocámos. seremos isso nós só porque o criámos? e se formos, que é isso que não apenas um holograma da imagem que julgamos ser?

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  • Madalena

    Já que aqui te apanhei aproveito para te dar os bons dias Catarina.
    Tudo bem?

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  • o bailio

    (o contablista dos óculos só falou na “mentira dos poetas” porque à época o Martinho da Arcádia não se podia reinventar em ciber-café…)

    “porra pá!” … e há algum escritor que não seja ficcionista? um poeta? um escrevinhador como nós?
    os únicos que escrevem só o que vem nos Códigos chamam-se escrivães e servem Senhores de bibe preto. nós, camponeses da palavra, que a mondamos com todo o carinho que (lhe) temos – e quem me refuta que é mais corrente ‘ler’ sinceridade num amador que num prof’? -, porque raio após a ceifa os nossos fardos de cevada têm de gerar cerveja de má qualidade, ‘adulterada’?
    a net é lixada. como numa trip há um momento em que o cogumelo cresce tanto que não nos escondemos (mais) de nós próprios. é impossível: posts dixit, e ácidos eles são.

    não sou teimoso ao ponto de manter-me na de que, lendo-te a argumentação, não me revejo nas razões. “porra pá!” somos todos uma carrada de defeitos! é certo, pois. éramos ‘marcianos’ se não os tivéssemos. mas, caramba! eu leio mais sinceridade nas palavras que nos olhares. para o bom e para o mau. ninguém ‘dissimula’ eternamente se anda de caneta em riste: nessa justa acaba sempre por numa investida sair apeado. e depois? o gajo das cebolas não esteve sessenta anos para contar do seu imo o que em redondilhas torneara… até “a caneta” não aguentar mais e soltar as palavras que faltavam? o ALA… o ALA em cada linha é um livro, digo, um peito aberto. mas ‘ele sabe’ que falta escrever ‘a’ crónica, ‘o’ livro, e por isso continua incapaz de parar. boga, bloga as palavras incansavelmente. eu sou Gunter e tu és António. e eles são nós. afasta-nos Marte e o Olimpo mas aproxima-nos esta febre do cheiro da tinta fresca, nosso sangue, arado que nos trilha dia a dia e vai desbastando ervas e flores á mistura.
    eu não sei o que sou. felizmente, “porra pá!”… um bailio, tu um Zé. somos vizinhos de condomínio e no elevador fazemos um sorriso amarelo e espreitamos o jornal do outro, o título do livro debaixo do braço. depois metemos chave às portas e fechámo-las. encontramos o espelho, e estas páginas olhando para nós. qual é a tua, a minha, o vizinho blogará?
    hoje faço de advogado de diabo. é que normalmente sou eu o depressivo. sabes porquê? porque abri a merda da janela e está um Sol do caraças! do caraças! e eu sem blogue! e eu tal como tu armado em fantasma das caixas de comentários do vizinho. a sinecura do nómada. a alegria de escrever reencontrada após o enterro do tal gajo que está no espelho e… é horrível – pelas manhãs. é impossível “eu-tu” sê-lo todo o dia. há todo um campo para lavrar. não sou proprietário, rendeiro, seareiro. não tenho terras mas não resisto-resistes quando olhas uma folha em branco, um campo imensoooo e tanto para lavrar… (perdi-me não sei onde, não me interessa e nem sequer vou reler nada. isto está tal qual ‘quando’… e daí o retiro monástico. tchau. vou bazar. vou visitar outros mortos-vivos lolol)

    thanks pela oportunidade de desenferrujar umas coisitas qua andam por aqui a chocalhar ;)

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  • o bailio

    olá Catarina, olá Madalena, ao Zé já disse olás que chegassem :)

    e “fui” :)))

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  • bailio, diz-me apenas uma coisa: o que te falta para (re)abrires um blog? tanto desperdício … andamos de razões inversas – eu tenho um blog que não tenho com que alimentar, tu não tens um blog para deixar tamanha prosa. Humm, nada disto me parece tão linear como tu o dizes.

    Olá meninas, estejam à vontade

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  • o bailio

    (sussurrando..) ando armado em ‘bartebly’ mas… com umas saudades tremendas ‘de mim’ :(

    e mais não digo sem a presença do meu advogado :))

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  • o bailio

    (essa do ‘desperdício’ é que não… hoje não tenho “umbigo”. felzimente… ;) tive mais prazer neste troca-troca de escrevinhar que nos últimos temos no meu tasco)

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  • cat m

    Olá Madalena, boa noite! Só vi agora! beijos!

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  • pois. a miuda cat tem dois blogues e vinte e quatro alter-egos e ainda vem para aqui fazer conversa
    assim nem vale a pena fechar este blog!

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  • PreDatado

    Vim uma data de dias atrasado abri a janela e não está porra de Sol nenhum. Só nuvens negras num céu cinzento. Olá todas. Olá todos.

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