Monthly Archives: Dezembro 2008

o último cowboy

Quase todos dias ao princípio da manhã, quando desço à tasca do costume para o devido café, acabo por o encontrar. Primeiro vejo-lhe a motoreta à porta – daquelas de 50cc com uma mala branca atrás tão desproporcionada que fico sempre a cogitar o que de tão volumoso precisarão que caiba lá dentro. Entro e lá está ele ao balcão, simpatiquíssimo, sem nunca faltar aos bons dias. Trocamos normalmente algumas observações sobre os acontecimentos futebolísticos do dia anterior e pouco mais. Depois emborca a uma vez só o copo de três, passa as costas da mão pela boca, ajeita o coldre, põe o capacete e parte, no seu cavalo azul. Vai aconchegado que o dia é longo e com tanto bêbedo pelas estradas há muito porque zelar.


reprises e ralentis

(…) Correrão depois mais uns dias no calendário até que este espaço volte a parecer desocupado e durante uns tempos não me importarei que se o tome como uma parte de dentro de mim. Depois sei que voltarei, preocupado, alardeando fertilidade, deixando outro algo que possa parecer mais escrita de punho fácil. E hei-de voltar uma e outra vez depois ainda, como quem alimenta os peixes de um aquário herdado a que já não acha graça.

Por mais dificuldade que tenha em reconhecê-lo vou descortinando o que me continua a aprisionar aqui, o que me impede de lhe prestar um fim misericordioso. Há uma estranha alquimia que se vai formando depois de começarmos a escrever-nos perante os outros. Há uma parte de nós que inexoravelmente se enquista nas palavras em que nasce e não mais as abandonará. Passará a existir de forma própria nesse território que partilho com os outros e por isso, querer manter essa parte de nós, significa fertilizá-la compulsivamente com novas palavras, sempre e sempre … e parar de (o) escrever torna-se assim, de certa forma, o anúncio da morte dessa parte de nós, a que construímos com aqueles que nos lêem.

E por mais abstracta e volúvel que seja esta morte a verdade é que, deixando de acontecer diante de outros, haverá uma parte que deixará de existir dentro de mim. (…)

 

escrito algures lá para baixo, neste blog


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