Monthly Archives: Março 2009

vitupérios matinais

Para nos sentirmos bem não basta que o queiramos e façamos por isso. É também preciso, por exemplo, que do lado de fora não chova. Não sei explicar bem mas sei que há um efeito de contaminação do que nos rodeia – e nada desprezível – que pode tornar as nossas tentativas para forjar a felicidade um acto absolutamente inócuo e insubsistente.mahon-menorca-baleares3


com a câmara-de-ar nas mãos

O ar não se sente, só a sua falta. Nunca daremos por ele a menos que ele simplesmente comece a extinguir-se dentro de nós. Será provavelmente o anúncio de uma morte prematura, arrastada e exausta, que ainda não reconheceremos. Depois, lentamente, iremos sendo sugados de energia até quase só restar no nosso corpo a atenção para sobreviver. No fim já nada mais nos interessará além do esforço para mais um jorro de oxigénio, um tique-taque onde redobraremos uma desgastada vontade de ir sobrevivendo. O mundo afasta-se e todos os sons que nos rodeiam são abafados pelo ruído vibratório que nos vem de dentro. Tudo passa a ser intermitente, distante, ocultando-se ao ritmo do batimento respiratório e também as coisas, todas as coisas, se tornam cansadas. Ficamos cada vez mais só nós, exaustos, contando os impulsos poupados da nossa respiração e lá ao fundo os outros começam a deixar de nos importar. O movimento torna-se cada vez mais incomodativo à nossa volta e a sadia agitação do mundo, daqueles que ainda agora amávamos, enche de alvoroço a nossa quietude forçada. Aos poucos vamos ficando murados por um corpo envelhecido, inerte, imprestável para fazer parte do mundo onde ainda agora vivíamos.

Pudéssemos ainda assim partir de forma melosa – apesar desta míngua lenta-, deixando-nos pintalgados de cores doces naqueles que nos rodeiam, acariciando memórias que cuidaríamos de deixar. Mas nem isso. Que também a nossa mente se torna vítima desta coisa de ir morrendo como se estivéssemos no fim de um assobio. Por falta de oxigenação todos os recantos da nossa personalidade, todas as matizes do nosso comportamento de outrora, se vêm escondidos por uma cortina de cólera que crescerá descontroladamente em nós. Esses últimos fôlegos acabarão por escrever de nós um rasto de irritação tão forte que toldará nas memórias dos outros tudo o que antes houvéramos sido e quiséramos ser. Que será assim, dizem, que partiremos no fim, a sós, neste paradoxo que por falta de sangue fresco ainda mais nos encarniça. Como se esse processo de apagamento de nós não quisesse deixar resíduos, como se, para além de nos fazer mirrar o corpo e de nos obrigar a procurar um canto da realidade para os últimos estertores, tivesse ainda que nos tornar irrisórios nas memórias dos outros. Mirra-se-nos o corpo, azeda-se-nos o espírito e definham assim as memórias que farão de nós vago passado.

Um último arquejo e, surpreendentemente, solta-se-me um riso. (Irei morrer sem um esgar). Vejo-me a caminhar pela eternidade atrás de uma borbulha de oxigénio como um irrequieto caçador de borboletas em calções de caqui e rede na mão, vociferando, saltitando pelo infinito em demanda de um último cubinho de ar. Ou da falta dele, que o ar não se sente.


sou

… entre o meu pai e o meu filho

origens


mais uma vez, uma vez mais

Admiro as pessoas capazes de zombarem com as rotinas e que à morna dormência do dia-a-dia preferem o desconhecido. Admiro aqueles que não disfarçam o incómodo, que não ziguezagueiam em escusas, que conservam a lucidez suficiente e corajosa para saberem quando devem começar de novo e lançar-se por novos destinos. Admiro quem é capaz de enfrentar o estranho com a mesma segurança com que eu me movo no que me é familiar e quando o faz se lança com mais ímpeto ainda do que eu me atrevi na primeira vez. Admiro as pessoas que depois das cabriolices que a vida nos reserva são capazes de aparentar a mesma pujança e a mesma expectativa de sempre. Porque usar assim a ilusão para afrontar a vida não é uma ingenuidade, é cultivar a resistência, é saber procurar o nosso lugar mesmo que no meio da adversidade. Admiro esses que têm neles o fôlego para sempre mais uma braçada e que olham para as encruzilhadas como mais uma oportunidade. Mas sobretudo admiro aqueles que sendo assim, temerários, inquietos, insatisfeitos, ousam recomeçar tudo de novo, uma e outra vez, tantas quantas forem precisas [e já foram tantas (!)] com o mesmo olhar entusiasmado de sempre e o sorriso mais contagiante do mundo.

Admiro-os porque são eles, sendo-me próximos, que me fazem acreditar que em cada um de nós há sempre as réstias para ser homem de novo, para ser um homem novo, erguendo-se acima do destino.

(readaptado de um escrito de 2006)


(re)visitando Ulisses

(re)visitando Ulisses


agradecimentos

Rói na carne esta dor. Cessa-se finalmente este longo trajecto de angústia para sobrar apenas a perda, como um baque seco no fim de uma queda abissal cujo termo a nossa fraqueza seria eternamente capaz de adiar. Mas não é aqui que a aliviarei ou a exaltarei, a esta mágoa, nem tão pouco a partilharei. A realidade, quando se faz assim cruel, tem de ser afrontada no seu todo até que a última gota se dissipe dentro de nós. Para isso de nada serve a ilusão das palavras. Agora, com a minha família, irei guardar esta dor, transformá-la nas memórias do Afonso, fazer o nosso luto com a intimidade que lhe é devida e que tanto precisamos.

Mas não queria, nesta última vez que aqui venho a pretexto de tão trágico assunto, e antes de o levar para a minha privacidade, deixar de vos manifestar a minha infinita gratidão e admiração pelos gestos de solidariedade com que sentimos a v. acção ao longo de todos estes dias. Foram tantas e tão determinadas as manifestações do que aqui refiro que me abstenho de particularizar estes meus muito sinceros agradecimentos.

Se os milagres existissem provavelmente irromperiam assim, estimulados pela faísca de tanto querer, pelo poder de tanta humanidade. Se os milagres existissem, sei que todos vós teríeis voltado com o Afonso.

Bem hajam

 


(…)


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