com a câmara-de-ar nas mãos

O ar não se sente, só a sua falta. Nunca daremos por ele a menos que ele simplesmente comece a extinguir-se dentro de nós. Será provavelmente o anúncio de uma morte prematura, arrastada e exausta, que ainda não reconheceremos. Depois, lentamente, iremos sendo sugados de energia até quase só restar no nosso corpo a atenção para sobreviver. No fim já nada mais nos interessará além do esforço para mais um jorro de oxigénio, um tique-taque onde redobraremos uma desgastada vontade de ir sobrevivendo. O mundo afasta-se e todos os sons que nos rodeiam são abafados pelo ruído vibratório que nos vem de dentro. Tudo passa a ser intermitente, distante, ocultando-se ao ritmo do batimento respiratório e também as coisas, todas as coisas, se tornam cansadas. Ficamos cada vez mais só nós, exaustos, contando os impulsos poupados da nossa respiração e lá ao fundo os outros começam a deixar de nos importar. O movimento torna-se cada vez mais incomodativo à nossa volta e a sadia agitação do mundo, daqueles que ainda agora amávamos, enche de alvoroço a nossa quietude forçada. Aos poucos vamos ficando murados por um corpo envelhecido, inerte, imprestável para fazer parte do mundo onde ainda agora vivíamos.

Pudéssemos ainda assim partir de forma melosa – apesar desta míngua lenta-, deixando-nos pintalgados de cores doces naqueles que nos rodeiam, acariciando memórias que cuidaríamos de deixar. Mas nem isso. Que também a nossa mente se torna vítima desta coisa de ir morrendo como se estivéssemos no fim de um assobio. Por falta de oxigenação todos os recantos da nossa personalidade, todas as matizes do nosso comportamento de outrora, se vêm escondidos por uma cortina de cólera que crescerá descontroladamente em nós. Esses últimos fôlegos acabarão por escrever de nós um rasto de irritação tão forte que toldará nas memórias dos outros tudo o que antes houvéramos sido e quiséramos ser. Que será assim, dizem, que partiremos no fim, a sós, neste paradoxo que por falta de sangue fresco ainda mais nos encarniça. Como se esse processo de apagamento de nós não quisesse deixar resíduos, como se, para além de nos fazer mirrar o corpo e de nos obrigar a procurar um canto da realidade para os últimos estertores, tivesse ainda que nos tornar irrisórios nas memórias dos outros. Mirra-se-nos o corpo, azeda-se-nos o espírito e definham assim as memórias que farão de nós vago passado.

Um último arquejo e, surpreendentemente, solta-se-me um riso. (Irei morrer sem um esgar). Vejo-me a caminhar pela eternidade atrás de uma borbulha de oxigénio como um irrequieto caçador de borboletas em calções de caqui e rede na mão, vociferando, saltitando pelo infinito em demanda de um último cubinho de ar. Ou da falta dele, que o ar não se sente.

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