brincadeiras do fim da rua

Um bairro na periferia de Lisboa. E uma rua íngreme e estreita ladeada por duas fileiras de moradias geminadas. Alinhados, os telhados formam uma ladeira de tons vermelhos que se inclina desde o largo cego lá no cimo até estancar contra uma rua larga de onde nascem os limites da cidade e por onde os pais levam as suas pressas de todos os dias. Por cima deles emergem as copas dos choupos, grossas, verdes e resinosas, chocalhando ventos mornos. De sítios invisíveis junto aos muros cantam grilos num compasso mole, a acentuar o silêncio fundo da tarde. E arde a canícula num verão a pique de fazer a palma das mãos empapar-se de suor e terra. A pimenteira que cerca o quintal do Abílio da padaria tem um chocho escavado por dentro onde bem acocorado cabe por lá um miúdo. Está lá um, agora, assim, há uma boa meia hora, imóvel, atirando o seu olhar atento para o lado de fora da sebe, onde vai perscrutando todos os movimentos. Doem-lhe os joelhos assim de tanto tempo dobrados, os olhos ardem-lhe das poeiras secas das entranhas do arbusto e os insectos microscópicos enchem-no de uma irritação insuportável pelo corpo todo, mas dali não se arreda. Ao longe vai ouvindo a gritaria junto ao coito, “1, 2, 3, Mário”, e pouco depois, “1, 2, 3, Cláudia” e vai descontando um-a-um, mentalmente, para ir dando conta de quantos faltam. Quer ser o último. Vê-se já numa largada vitoriosa pela rua abaixo e nele trazendo o salvador grito do “1, 2, 3, salva-todos”. Mas para isso tem de ser paciente. Há uma paz ali no meio do arbusto, o pó, o calor, o suor pegajoso, o grilar, o silêncio cavado dos raios de sol a subirem-lhe pela perna esquerda, tudo isso fazendo uma distância que o isola do mundo e o entorpece em pensamentos díspares. Vai esvoaçando razões ao desvario enquanto o tempo passa e assim combate a irrequietude que o quer dali para fora. Parece-lhe agora escutar um “Meninooooo”, vindo do fundo da rua, mas não se toma de atenções. Um dia há-de propor que passem a brincar às guerras. Tem até ideias das regras que podem inventar, 5 passos -morto, 10 passos-ferido, quem assim fica não se pode mexer durante 5 minutos e depois de alguém disparar o outro já não poderá alertar os companheiros da mesma equipa. E não há prisioneiros, ajusta, que a vitória tem de ser total. Vê-se já de metralhadora a tiracolo, emboscado num galho do pinheiro da curva da rua, escondido por uma máscara que fará com papel de lustro, como o Zorro, mas em verde. De lá debaixo ressoa outra vez o “Meninoo, venhó lancheee”, agora já mais distinto e familiar. Mas ele até podia bem não estar ali e assim nem ouvir, e além disso são só mais uns minutos. “Os heróis da rua 7” podia bem chamar-se assim a nova brincadeira, com mais acção e haviam de fazer esconderijos a sério com os ramos que o Sr. Aniceto tantas vezes deixava num monte de poda por apanhar. Mas os mais novos não poderiam entrar que esta já era brincadeira dos grandes e assim escusava de lhes ouvir todos os dias as queixinhas do costume ao jantar. Essa poderia bem ser a nova diversão do depois da escola. E será. Mas só dali a uns 2 anos, quando o pai o deixar usar a casa das ferramentas para fabricar as suas armas cada vez mais exuberantes e gabadas, que por agora a Sr.ª Lídia já chama, quase grita, lá ao fundo, para o lanche.

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