das causas causadas e dos causídicos

tourada

 

Nunca assisti a uma tourada e é provável que nunca o venha a fazer. Não por qualquer reserva de natureza ética mas porque simplesmente não me entusiasma. Aliás, vendo-as por fora, fico sempre com a sensação que nesta se representam e apreciam mais os trajes e portes que pululam as bancadas que aqueles que na arena brindam o público, mas isto é a visão distante e acrítica de quem apenas vai lançando olhares furtivos para as muito raras transmissões televisivas.

Devo ainda adiantar que não sou contra nem a favor das touradas e que sobre o assunto apenas acho ser um desproporcionado disparate com todas estas discussões que há anos rolam e enxameiam o falatório público a ponto de quase potenciarem microcisões sociais. Simpatizo com algumas imaginosas argumentações de ambos os lados, acompanho-as e quase sempre acabo por concluir ser um absurdo tomar o que quer que seja aí esgrimido como uma causa de relevo. Convenhamos que o número de cornúpetos que enfrentam uma arena é irrelevante face às atrocidades que todos os dias, em elevado ritmo desportivo, vamos cometendo sobre todas as outras espécies, sejam estas por questões de lazer ou sobrevivência. Até porque, como contrapunha falaciosamente um defensor das touradas, se estas não existissem provavelmente já não havia toiros. E enquanto vou discorrendo sobre isto posso bem recostar-me num confortável sofá de pele natural, até antecipando o tenro da perna de borrego que vou assar para o jantar, se é que me faço entender.

Reafirmo que não tenho nenhuma preferência por qualquer dos dois lados da questão se bem que tenha de reconhecer que, com tanto arremesso envaidecido deste “politicamente correcto” que contamina os discursos e encarneira a nossa sociedade, me seduz a perversão de me deixar pender para o lado dos touros, perdão, dos toureiros. E se o fizesse também haveria de entrar na discussão com argumentos tão exaltados como os que por lá vão sendo manejados, até justificando-os com testemunho de uma experiência que, ainda que transitória, terá sido suficientemente real para a ter como vivida. E retornaria até aos meus tempos de estudante, quando me propus ganhar uns cobres a trabalhar na carregação do matadouro de Beirolas, na altura o maior do país, hoje solo terraplanado lá para os lados da Expo. E poderia então contar como os animais entravam naquela fábrica da morte, do fedor a entranhas e a medo, das lágrimas que lhes escorriam pelos urros do pânico. E da paródia que se fazia de cada vez que a mais um lhe era espetada uma faca na fronte e se improvisava uma tourada em redor dos seus passos bêbedos de morte. Ou de como ainda esperneando os últimos estertores se viam já pendurados por uma perna nos monorails porque, dizia-se, assim seria mais fácil sangrá-los. E de como me assaltavam as dúvidas se no posto de trabalho seguinte, onde uma lâmina lhes golpeava uma gola junto aos calços para os despir da pele, eles já teriam verdadeiramente sucumbido.

Hoje os métodos (e a humanidade) terão evoluído, espera-se, e quero admitir que este processo bárbaro da morte se tenha apagado com a história dos velhos edifícios onde se desenrolavam, mas não tenho dúvidas da insensibilidade de quem lá trabalha ainda hoje, desse calo do dia-a-dia que se treina para tornar suportável tal ofício e que obviamente não me atrevo censurar. Que ali não é não é sítio para fantasias dessas e o respeito pelos animais que se mata, hora após hora, ao longo de uma vida honrada de trabalho, mais não seria que mera hipocrisia. Mas a questão que quero gizar sobre tudo isto, e ainda que retórica, estendo-a agora aqui:  é apenas a perpetração da morte sobre os animais com intuitos culturais ou desportivos que deve ser inibida? Ess’outra que fabricamos a ritmos industriais para nos alimentar, essa que nos traz o bife para cima do prato, essa, portanto, não? Já sei que alguns contraporão que se trata de infligir sofrimento de forma sádica e gratuita, mas aí gostaria eu de voltar ao tempo da fábulas para perguntar ao magnificente e luzidio animal taurino se este se propunha trocar toda a sua faustosa vida de hectares de pradaria pela varanda que serve de cárcere eterno ao desgraçado do cão cuja dona provavelmente foi ali ao Campo Pequeno abanar um qualquer cartaz histérico contra as touradas.

Causas? Mas quais causas? Desculparão o arrojo mas se querem causas dessas comecem por deixar de comer bifes.

E deixo no texto abaixo, já antigo, um outro ponto de vista, quiçá, uma outra causa (?).

 

PS: Este post ‘anti-causa’ – mas com indeléveis tonalidades tauromáticas – dedico-o ao meu amigo João Lomelino.

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4 responses to “das causas causadas e dos causídicos

  • bill

    A boi velho, chocalho novo

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  • Noite

    Falou e disse! Tens toda a razão, é tão hipócrita condenar as touradas quando escolhemos o carro com estofos de pele e nos regalamos com o belo bife! Só porque não os vemos lá a agonizar no matadouro, não nos devemos esquecer que os fizeram sofrer para nos chegarem ao prato (e não sei se o processo será hoje indolor, duvido… seja como for, será tudo menos meigo e natural).

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  • Santos

    Concordo com a sua opinião. A actual campanha levada a cabo por esses grupos organizados não passa de mera fantochada e auto-promoção. Decidiram atacar o mundo taurino porque é um mundo mediático onde estão envolvidas personalidades conhecidas.
    Até parece que os touros são os únicos animais a sofrer neste país… com tanto animal de estimação que é abandonado, o caso dos matadouros que referiu, certos animais destinados à alimentação humana que são confinados a vida toda a espaços minúsculos sem nunca verem a luz do dia. Isso já não é crueldade?

    Fazer uma manifestação em frente a um matadouro, exploração agro-precuária ou chamar à responsabilidade o dono que abandona o seu animal de estimação, nunca lhes daria tanta projecção e mediatismo que lhes dá brincar ao klux klux klan em frente ao Campo Pequeno.

    O que me chateia no meio disto tudo são as politiquices e manobras de certos partidos políticos e presidentes de câmara na ânsia de, em ano de eleições, angariarem mais uns votos. Tudo isto com um empurrãozinho de certos meios de comunicação social.

    Também me chateia o facto de tanta gente ir na conversa daquelas pessoas, já não se pára para pensar hoje em dia? Acredita-se em tudo o que a tv nos tenta impingir?

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