do antes da alcatra e do pojadouro

Arfava sofregamente e o seu hálito desenhava bolas de nuvens espessas na madrugada gelada. Ao fundo ouvia das camionetas os rangeres das gaiolas que atarefadamente se abriam e por entre as frechas da lona da coberta observava o passar do magote de homens vestidos de fatos-macaco riçados e vermelhos que faziam por aquecer as mãos em concha com sopros de hálito. Madrugada de pleno inverno e a imobilidade trazia-lhe o frio por sobre toda a ossatura. Ao seu lado haviam muitos outros, quase todos trazidos de perto da sua terra e agora era bom poder apertar-se de encontro a eles e sentir-lhes o calor próximo – um calor forte que largava um cheiro áspero, um cheiro nascido das entranhas e que se propagava de uns para os outros.

Lá fora, na azáfama que se adivinhava do barulho, ninguém lhes prestava atenção, eles ali sendo paisagem na rotina de todos os dias. Do edifício central libertava-se um murmurejar rouco, quase inaudível, mas que a sua treinada audição permitia distinguir. Ainda que quase só sussurro percebia que lá, de onde se fazia ouvir, era tumulto, talvez mesmo uma descontrolada berraria de arquejos, que lhe eram familiares. Inquietava-se. Aos poucos, todos os que ali estavam consigo foram também ganhando consciência desse doloroso som distante e neles começava a notar os sinais dessa irrequietude. Lá nas terras de onde o tinham trazido era tida como um criatura orgulhosa e mesmo ali, em tão aflitiva situação, era o seu porte que sugeria alguns restos de serenidade aos demais. Mas até ele soçobrava agora, arrastado por aquele murmúrio crescente, uma ladainha de terror, assim mesmo, largada em tom rouco e soturno, a confirmar aquilo que a sua intuição já lhe tinha trazido. Esperava-o a morte.

Pouco depois, a carripana onde estavam amontoados deslocou-se em marcha-atrás, lentamente, até se imobilizar com um baque seco de encontro ao embarcadouro de cimento. Um homem meteu a mão por dentro do painel traseiro e desarmou o ferrolho. Assim que este se soltou todos os seus companheiros daquele infortúnio se comprimiram no lado oposto da camioneta, confundindo-se nas peles uns dos outros, embaralhando os olhares dos homens que agora os encaravam. Ele não. Deixou-se ficar imóvel, tenso, carregando um olhar de audácia onde escondia o profundo medo que o enfraquecia por dentro. A manhã, agora destapada, já permitia ver de forma clara o outro edifício lá mais ao fundo, aquele mesmo de onde se exalavam, agora mais evidentes, os gritos e os fedores que notara antes. Eram odores ácidos, espessos, inconfundivelmente carnosos, e demasiado familiares. Lá nesse outro cais de carregação afadigavam-se vultos para trás e para diante, dividindo aos pares o peso de peças pesadas, de cor encarniçada, que carregavam em ombros para dentro de camiões brancos.

Quando percebeu do que se tratava um arrepio percorreu-lhe todo o corpo e as suas pernas possantes quase baquearam com o peso daquele terror. Depois, subitamente, sentiu-se laçado, uma e outra vez, e antes que pudesse reagir um espigão enterrou-se dilacerante por trás da sua nuca. Em redor de si ouvia a bradaria de pânico que se tinha apoderado dos outros. Escorava-se com força nas travessas que lhe serviam de chão, agora inundadas da sua urina que escorria para os fundos do camião, enquanto do lado de fora três ou quatro homens gritavam e puxavam-no, incentivando-o a ceder. O ferrão cravava-se cada vez mais profundamente e a dor fazia-se já adormecida por todo o corpo. As pernas vacilavam e o seu olhar orgulhoso embaciava-se. Os homens entretanto iam-se amontoando à sua frente e enquanto uns vociferavam outros riam desbragadamente. Não conseguia compreender exactamente as suas expressões. Sabia apenas que mostravam uma alegria que lhe era incompreensível ali e que o revoltava ainda mais. Tudo aquilo era ignóbil. Não fora ensinado a perceber o que os humanos queriam fazer com ele, e muito menos porque agora ali estava e porque o queriam conduzir para a matança.

Nada disso lhe deveria levantar interrogações e contudo, naquele momento, perguntava-se porque teimavam aqueles homens em largar aqueles gritos esganiçados, porque mostravam eles essa satisfação afinal. Porque não o deixavam cumprir com a sua dignidade de macho estes seus últimos passos. Fincou então numa última teima as patas dianteiras, e de seguida rodou o torso tanto quanto pôde, até poder ver os fundos da camioneta. O seu cachaço rasgava-se num colar de dor e um bordado de sangue deixava-se verter em franjas escuras. Fitou então com os seus olhos negros, uma última vez, os seus companheiros e susteve-se assim, galhardo, todo o tempo que lhe sobrou. Por fim lançou o pescoço ao céu e largou o mais estridente grito que alguma vez se deverá ter ouvido pelas bandas daquele matadouro. Os homens, surpreendidos, aliviaram bruscamente a pressão do ferro e das cordas com que o acicatavam e depois, vendo-o liberto, afastaram-se num reflexo de receio por uma investida sua. Em vez disso, desceu mansamente pelo tabuado improvisado e encaminhou-se altivamente para a porta do edifício de onde provinha aquele inferno de barulhos e odores. Só, sem outros mais, sobretudo sem a infame companhia daqueles homens que se aliviavam por o ver seguir assim brando. Mesmo sem a compreender, esta morte, seria sua.

Novembro, 2005
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