dos desejos e das fantasias

A minha primeira paixão foi uma vizinha que já tinha maminhas. Teria mais uns dois anos que eu. Tímido, rondava as brincadeiras onde ela entrava até que um mero acaso ou alguém me chamasse a participar. Às vezes aguardava por ali a tarde inteira, ia, vinha, sentava-me, levantava-me, até finalmente recolher a casa ao fim do dia, frustrado, carregando comigo mais um insucedido encontro. No dia seguinte a mesma coisa. E todos os dias a intransponível distância da minha timidez a deixava lá longe, numa fortaleza platónica que se ia tornando cada vez mais inexpugnável. Treinei-me então em sonhá-la e ela tornou-se sem o saber o meu avatar do desejo. Sem que eu desse por isso, a encantadora rapariga foi sendo revezada pela personagem que dela ia esculpindo nas minhas fantasias. Por fim, a miúda por quem me apaixonei passou a desinteressar-me completamente e a carne que desejei esvaiu-se nas nuvens de ilusão com que modelava as minhas ficções.

Não se devem matar os desejos com sonhos, nem os sonhos devem ser desfigurados com fantasmagorias da realidade que não ousamos alcançar. Os sonhos assim fabricados acabarão por inibir a nossa maravilhosa capacidade de desejar e a imitação do real, no nosso território onírico, assim avassalado, levará a que este deixe de poder ser o refúgio para as nossas hesitações interrogações.

Mas isso ainda poderei vir a aprender um dia.

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