da nobre arte de velejar

O Sr. Brandão era o protótipo do marialva português, gordo, atarracado, uma pobre figura adornada de pulseiras metálicas que deixava um rasto agoniante de perfume. Acontece que o Sr. Brasão além de director do clube era também o chauffeur e patrocinador, com as suas próprias posses, das nossas deambulações pelas regatas do campeonato nacional. No fundo era bom homem, um pouco estroina mas inofensivo e a quem tolerávamos tanta ostentação. Este nosso dirigente tinha à altura um velho “boca de sapo” que era pau para todo o serviço, sendo que lhe cumpria como principal afã rebocar barcos e tripulações por este país fora. Normalmente, onde quer que fosse marcada a regata, lá nos viam chegar como habitualmente, ele, mais dois à frente e uns cinco ou seis afundados no banco traseiro, com o estafado citroen ainda a receber um vaurien na capota, e mais dois atrelados pejados de cadetes e moth’s europe. As regatas, que já de si tinham o seu quê de aventura, eram assim açucaradas pela incerteza do sucesso de cada viagem. Havia quase sempre qualquer contratempo ou acidente que este homem resolvia com franco desembaraço e imaginação, e nisso colhia a nossa admiração, embora lamentássemos que por cada episódio bem sucedido tivéssemos de o gramar pelo resto da viagem com ininterruptas bajulações.

Mas verdade se diga que até nisso era um legítimo português dos sete costados, na forma como desenrascava qualquer situação. Recordo-me que numa das vezes seguíamos para Vilamoura com o pobre do carro rebocando e transportando barcos e tripulação, essa imensa e digna representação do clube. Aí por alturas de Setúbal começou a cair uma bátega de água. Se naquela altura já era coisa morosa a viagem, nunca para menos de umas 4 ou 5 horas, pensá-la assim em pleno dilúvio e com aquele transporte todo, era quase exasperante. Tínhamos saído de madrugada e estimava-se que só 6 horas mais tarde nos pudéssemos ver aproximar do destino, e esta seria uma perspectiva optimista como convém a uma matilha de malta nova fora de portas. Agora assim, com aquela chuva, até as estimativas mais simpáticas soçobravam. Mas lá fomos andando, com a alegria devida, por mais alguns kilómetros, até mais precisamente por alturas de Alcácer, justamente a latitude onde o limpa pára-brisas começou a dar de si, primeiro com um chiar emperrado, depois com um arrastar cada vez mais acabado, até que finalmente as escovas deixaram de funcionar.

Ainda o desenrascado Sr. Brandão foi tentando a condução com a cabeça de fora até que, até ele, acabou por desistir. Encostámos. Mas por poucos minutos, que quase logo de seguida arremessou-se com os improvisos que começávamos a estranhar-lhe ausentes. E sai então na direcção dos atrelados de onde regressa com uma ‘cana de leme’ (para os menos familiarizados com a palamenta de um barco trata-se de uma vara comprida que se fixa ao leme dessas embarcações), e mais uns dois metros de escota. Estóico, ia-se dando à chuva debruçado sobre o vidro em agitadas manobras, no que era seguido pela nossa curiosidade ali recatados no interior do carro. Quando por fim voltou a acomodar-se ao volante estava de tal forma ensopado que a franja que normalmente repuxava do lado do risco e que lhe tapava a calvície em jeitos cuidadosamente acachapados, lhe caía inerte e desastrada de um dos lados, desistindo de toda a dignidade. Mas o nosso mentor sentia-se de tal forma bem sucedido que ao invés de dar conta dessa ridícula figura seguia com um indisfarçável sorriso de orgulho enumerando as instruções que pretendia para o manejo do seu engenho. Esclarecia então o velejador à sua direita da missão que lhe estava agora destinada. Resumia-se esta a lançar o braço para fora da janela, agarrando depois a ponta da cana-do-leme e à qual deveria imprimir movimentos repetitivos da direita para a esquerda. Ora, sendo que esta se encontrava agora fixada a uma das hastes do limpa-pára-brisas isso iria estimular o agonizante mecanismo aos movimentos rotativos com que aliviaria o pára-brisas da opaca camada de água. Esta durou quase toda a viagem e para este lugar de tamanha responsabilidade lá nos fomos revezando, toda a tripulação, um de cada vez, no que se fazia acompanhado pelo ritmo entoado e encorajador dos restantes.

Estas memórias podem até estar algo difusas mas se há imagem que retenho como se fosse ontem foi a estupefacção dos restantes participantes no evento ao testemunharem a nossa chegada à Marina de Vilamoura: um “boca de sapo” agachado, quase rastejando, que com a altivez possível arrastava uma insólita serpente onde pontificava o afanado Sr. Brandão acompanhado de mais 7 joviais velejadores; no vidro da frente do carro encastrava-se um pau que um brioso rapaz, com quase meio corpo de fora, empurrava para diante; por cima um barco, de casco voltado, assentando a todo o comprimento da capota, quase parecendo um chapéu gigante daquela bizarra comitiva; atrás rebocava-se uma galera de 3 andares de barcos e para acabar o desfile uma outra com outros tantos barcos se engatilhava nesta. Foi assim que chegou aquele punhado de miúdos barulhentos que treinava lá para os lados da doca do Poço Bispo, por entre batelões e borras de nafta, a juntar-se aos aprumados navegadores de Carcavelos, Cascais e de outras tantas zonas onde este desporto tão elitista agora se via envergonhado por tão indecorosa corte.

Nesse fim-de-semana acabei por me sagrar vice-campeão nacional em Cadete. Apesar de outras mais participações do género nunca mais voltei a alcançar novo lugar de mérito. Admito, aliás, tenho quase a certeza, que por falta dos zingromés do Sr. Brandão.

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8 responses to “da nobre arte de velejar

  • Mar

    Bela história, detalhado relato, divertido … e ainda dizes que escreves mal!

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  • digo?
    realmente não tenho emenda

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  • Mar

    que é só um exercício teu e que não te preocupas muito com a forma, mais com o conteúdo. percebi mal, então!

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  • Bartolomeu

    Grande Malha!!!
    Este texto é-me particularmente grato, porque tambem velejei durante uns bons anos em moss e em snipe e fui monitor de uma escola de vela no clube naval de Sesimbra.
    Conhecer o mar e aproveitar a força do vento para atingir o ponto desejado manobrando uma casquinha de noz embandeirada, são ingredientes de um coktail que me inibriam por completo os sentidos.
    Ha uns bons anos que não sento o rabo na borda de um barco, nem prendo os pés numas cintas, tão pouco sinto a sensação da água salgada a galgar-me a cabeça enquanto empranchado numa bolina cerrada travo um braço-de-ferro com as refregas , segurando numa mão a cana-de-leme e na outra a escota da vela grande, nunca trincada nos mordentes.
    Ha uns 3 ou 4 anos decidi alugar um cata-marã na lagoa de Óbidos.
    Deu para fingir que me tinha reconciliado…
    ;)))

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  • Viva Bartolomeu,

    Também este comentário me reavivou a memória. Sobre os moth’s. Não tenho a certeza que queira remexer nisso, mas aqui vai. Um dia o meu pai ganhou o totobola. Incauto, antes de saber quanto é que lhe tinha cabido, predispô-se a oferecer uma prenda a cada filho. Eramos 6, mas para sorte dele alguns ainda muito cachopos não arrolaram expectativas para além de pequenos brinquedos. Sairam-lhe 40 e tal contos, não desprezíveis é certo, mas que se esgotaram logo com a mota que o mais velho pediu. Eu pedi-lhe um moth europe. Construiu-se o barco no ‘brites’ e as velas mandei fazê-las no ‘oscar’. Isso levou tanto tempo que quando por fim me vi proprietário da bela embarcação já pouco ou nada me ligava a essa rotina do fim de semana. E se é certo que mais tarde ainda a retomei – já não em solitário – naquela altura deu-me para acabar por vender o barco, inútil. No outro dia fui almoçar ao clube naval de lisboa, ali a belém, e não é que entre o que por lá estava a encher-se de pó dei com o meu infeliz moth europe, quase como novo? palavra de honra que desde aí não me tem ocorrido outra coisa que não seja tentar voltar a tê-lo para mim. Assim em jeito de remediar as asneiras, ou quem sabe, em propagá-las aos meus filhos.

    saudações nauticas

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  • alexandra

    Carcavelos tinha aprumados velejadores? que velejavam por Cascais não? eu era mais snipe e o sonho dos laser…

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  • efe

    Belíssimo naco de prosa poética (como todas as memórias). Por momentos recordei “velejeirices” em Lusitos, Cadetes e Vaurien’s. Hoje, é com equipagem de 5 ou 6. Outros tempos, outras velas.
    Saúde.

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    • e lá vou eu prolongando memórias efe. os lusitos foram os cascos onde me iniciei na vela, lá pela escola de algés, pouco depois de ter deixado de ser da mocidade portuguesa. e tinha tantas histórias para contar sobre isso …

      (isso da vela passar de solitário para mais 5 ou 6 não tem nada de mal. é apenas o conforto que a idade nos exige. padeço do mesmo)

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