Oops

Nasceram apenas com 2 dias de diferença no calendário embora o Diogo tenha nascido três anos depois, justamente a 15 de Janeiro de 1996. Nesse dia e nos dois dias seguintes ficámos só nós, eu e o Francisco, vivendo a nossa vida algo ansiosa e desajeitada, absolutamente estranhos àquele impenetrável processo em que a mãe e o novo irmão se conheciam, agora por fora. E assim, sentindo-me desfuncional, e pretendendo-me mais útil, dediquei-me a preparar a entrada do intrometido bebé no que até à data tinha sido a epicêntrica e mimada vida do Francisco.

Fi-lo com a possível cautela e dedicação e de forma aparentemente bem sucedida, o que teve o seu auge com um homem-aranha escolhido pelo Francisco, ainda que fosse uma estatueta de plástico com mais um palmo de comprimento que o irmão – mas quem escolhe para os outros aquilo que queria para si nada tem para ser criticado.  Claro que a situação se tornou um pouco mais emaranhada com o regresso a casa dos dois membros da família, o que por coincidência aconteceu justamente na véspera do aniversário do Francisco. Dedicado à causa, atento, logo me voluntariei para organizar a sua festa de anos, no que nos fomos entretendo os dois nos preparativos, ele fazendo desenhos nos convites, eu numa parte da labuta a que confesso não estava muito habituado.

Correu quase tudo bem. Conseguimos juntar uma bela alcateia de crianças e divertiram-se pela tarde fora e pela casa inteira. Os adultos, em particular as restantes progenitoras que acompanhavam os convivas, é que se portaram menos bem. Maravilhadas que estavam com o novo “tão igual ao pai” membro da família, de nada me valeu tentar desviar-lhes as atenções do ratinho que ali se mostrava ao mundo, elas também de mim completamente alheias e do facto do aniversariante nesse dia ser outro. Aparte isso, tudo correu bem e farto de alegria e smarties, como aliás se previa.

Julgava eu. Cessa-se a festa e os convivas vão partindo, um por um, até sobrarmos só nós, já não três, mas os quatro. Ao Francisco sobrava-lhe ainda a excitação, à mãe o cansaço e o mais novo, fazendo o que lhe convinha, dormitava. Ficávamos agora por ali a aliviar a fadiga, anichando-nos em redor do novo membro. O Francisco, debruçando-se com curiosidade sobre o irmão, chama-me então para mais perto:

Paiii

– Sim Francisco, o que foi? … Olha, gostaste da festa?

Gostei … – diz ele.

E logo de seguida, sem se interromper, arremessa a estrondosa e fatal interrogação:

– … Mas pai, quando é que os pais deste menino o vêm buscar?


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