das carcaças com manteiga e açucar

adaptado de um texto originalmente publicado aqui

 

Hora de almoço, depois das aulas. O pessoal empanturra-se com o que houver e no fim ainda emborca dois papo-secos para arrematar a fome. De seguida pira-se, bate com a porta da rua e lança-se em passo acelerado para a pressa do resto do dia. Mas em chegados tudo vira mais calmo, seja lá onde isso for, que nalgum sítio da rua certamente, um dos sítios do costume, onde esteja a malta. Depois pingamos pelas casas dos refractários: soam três toques de campainha ou sibila um código de assobio. Nem se aguarda resposta que essa não espera, ou melhor, diz que lá estamos à espera, no sítio do costume. Entretanto passamos por casa e entramos pela porta da cozinha na parte detrás do quintal, sempre aberta e guardamos duas maçãs no bolso que daí a nada a fome esperta de novo e depois já só no lanche, e voltamos então a aquietar-nos já no mesmo sítio do costume. Aos poucos vão chegando, todos, ruminando os restos do almoço, com cumprimentos ligeiros que nem se nota terem antes havido despedidas. E é tudo tão seguido, tudo acontecendo tão naturalmente após o último momento em que ali mesmo estiveram que nem surge ímpeto de iniciar conversa. Ela vai brotando serenamente, ao ritmo de quem vem chegando como se nunca tivesse partido e é assim até à hora de jantar, sempre assim. Um destes dias é possível que alguém diga algo de verdadeiramente novo, mas é certo que poucos lhe darão atenção, que as palavras aqui até nem são o mais importante. Que importante é estar por ali, por entre todos, até que algo se passe ou o fechar do dia – um interregno a que ninguém liga – os leve de volta para casa. Não há nada que deva ser dito ou feito, que amanhã, sabe-se, mesmo que ninguém o diga ou escute, amanhã haverá mais. E assim se vai seguindo, desfrutando das amizades e dos ócios, sem ânsias, como se todo o tempo do mundo se deixasse ali sentar connosco nas escadas, entretendo-se com um pedaço de pau rolando por entre os dedos distraídos, apenas ligando o que foi com o que há-de vir …

 

Destes dias de cá de longe, de onde hoje escrevemos, em que o tempo já não escorre assim, tudo isso parece agora um enorme esbanjamento, essa moleza cultivada de ir ficando por ali. Ou talvez não, talvez nem achemos nada, que não há tempo para isso. Talvez o pensemos para nós, assim mais rápido, ou talvez no limite o escrevamos num blog onde fingimos distender a nossa vida para além do que ela é. Quem sabe até se no fim não o enviaremos depois para algum endereço electrónico de um desses amigos que não se chegou absolutamente a perder, como se usando apressadamente estes endereços electrónicos pudéssemos fingir a cumplicidade das palmadas de mãos pegajosas de suores e manteiga escorrida das sandes dessas tardes. Que agora há menos tempo e sobram coisas por fazer, e há tecnologia por toda a parte e gente que vamos vendo às golfadas … mas falta carne.

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